Filologia como curadoria: o caso Pessoa

  • Pedro Tiago Ferreira Universidade de Lisboa, Lisboa
Palavras-chave: Filologia. Curadoria. Administração de textos. Patrimônio. Coautoria sui generis. Esemplastic Power. Ineinsbildung.

Resumo

O argumento desenvolvido ao longo deste ensaio consiste em defender que a filologia é curadoria textual. Com efeito, “curar de” significa “administrar o patrimônio de outrem”; ora, editar um texto é uma atividade segundo a qual o filólogo administra um patrimônio, ou seja, o texto que se tem em vista editar, de outrem, o respetivo autor; logo, o filólogo é um curador textual. Esta afirmação encerra, contudo, duas dificuldades que são abordadas ao longo deste estudo, e que podem ser expressas a partir das seguintes perguntas: Como se administra um patrimônio incorpóreo? Como administrar textos que se encontrem em situações semelhantes às da maior parte dos textos que compõem a obra de Fernando Pessoa, que são incompletos por inacabamento e não por partes dos mesmos se terem perdido? Nestes casos, é preciso entender que o filólogo, não deixando de ser curador, acaba por ter que assumir uma posição de coautoria sui generis, visto que a edição/administração deste tipo de textos implica a tomada de decisões que tipicamente são feitas pelos autores de obras literárias.

Biografia do Autor

Pedro Tiago Ferreira, Universidade de Lisboa, Lisboa
Doutorando no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras.

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Publicado
2016-12-12
Como Citar
Ferreira, P. (2016). Filologia como curadoria: o caso Pessoa. Filologia E Linguística Portuguesa, 18(2), 231-262. https://doi.org/10.11606/issn.2176-9419.v18i2p231-262
Seção
Artigos