O circuito produtivo dos agrocombustíveis no Brasil sob a ordem do liberalismo transnacional: do controle estatal à hegemonia corporativa

  • Elisa Pinheiro de Freitas Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
  • Margarida Maria Queirós Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Centro de Estudos Geográficos Universidade de Lisboa http://orcid.org/0000-0001-6843-6861
Palavras-chave: State. Territory. Transnational Corporations. Brazil. Agrofuels.

Resumo

Tomando o circuito produtivo dos agrocombustíveis no Brasil como caso de estudo, o propósito deste artigo é o de demonstrar as dinâmicas vinculadas ao seu processo de modernização e internacionalização, em particular, como as empresas transnacionais (ETN) que operam nesse circuito produtivo fomentando a produção de etanol de cana-de-açúcar e mais recentemente de milho têm: (i) condicionado os rumos das políticas estatais do Brasil, concentrando, por meio de subsídios e financiamentos, grande parte dos recursos públicos; (ii) influenciado a expansão de culturas e a organização do território brasileiro. Na primeira seção, abordam-se as políticas estatais brasileiras que tornaram possível a modernização do circuito agroenergético e, na segunda, o processo de internacionalização do circuito, intensificado sobretudo na primeira década do novo milênio e o papel impulsionador do Estado nesse processo. Por fim, é identificada a atuação das ETN nos (des)arranjos socioterritoriais a partir da expansão das culturas voltadas para a produção dos agrocombustíveis.

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Publicado
2018-03-15
Como Citar
Freitas, E., & Queirós, M. (2018). O circuito produtivo dos agrocombustíveis no Brasil sob a ordem do liberalismo transnacional: do controle estatal à hegemonia corporativa. GEOUSP: Espaço E Tempo (Online), 21(3), 771-792. https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2017.114782
Seção
Artigos