Uma geografia do esporte: as experiências dos clubes de iatismo da Zona da Leopoldina (Rio de Janeiro, 1941-1954)

Palavras-chave: Geografia do Esporte, História do Esporte, Rio de Janeiro, Subúrbio, Iatismo

Resumo

Dado o perfil do iatismo, um esporte usualmente praticado por grupos de classe alta ou média alta, pode parecer esdrúxulo ainda haver dois clubes dedicados à modalidade sediados numa região atualmente marcada por ser local de moradia de camadas populares: o bairro de Ramos, Rio de Janeiro. Considerando tais agremiações como indícios de um momento importante da história da cidade no que tange à ocupação dos subúrbios, bem como à ampliação das iniciativas esportivas, este estudo objetiva discutir as experiências do Iate Clube de Ramos e do Carioca Iate Clube em seus anos iniciais de atividade. Como o intuito é entender a repercussão pública de suas ações, especialmente no tocante à questão territorial, como fontes foram utilizados periódicos. O uso do Diário Oficial ajudou a identificar os relacionamentos com órgãos do governo. Trata-se de uma pesquisa desenvolvida na fronteira entre a Geografia do Esporte e a História do Esporte.

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Biografia do Autor

Victor Andrade Melo, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada/UFRJ

Referências

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Publicado
2020-01-23
Como Citar
Melo, V. (2020). Uma geografia do esporte: as experiências dos clubes de iatismo da Zona da Leopoldina (Rio de Janeiro, 1941-1954). GEOUSP Espaço E Tempo (Online), 24(1), 83-103. https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2020.163185
Seção
Artigos

Introdução

Em meados dos anos 1940, foi inaugurado um dos principais logradouros do Rio de Janeiro: a avenida Brasil. Os números impressionam. Com seus mais de 58 quilômetros, uma das maiores do Brasil, passa por 26 bairros e é diariamente percorrida por cerca de 800 mil veículos1 (Avenida Brasil, 2019). Cariocas de todas as regiões da cidade, em algum momento, acabam por utilizá-la. Muitos o fazem várias vezes por semana devido a seu lugar de trabalho ou residência.

A princípio celebrada e encarada como sinal de progresso, nos últimos anos, contudo, as notícias sobre ela não têm sido as melhores. Atualmente, a avenida Brasil é mais vinculada a problemas com drogas, violência e desgaste urbano. Poucos que por ela passam imaginam que aquela foi uma região bucólica. Construída em parte sobre um aterro da Baía de Guanabara, no decorrer do tempo acabou, inclusive, “ocultando” o mar da visão cotidiana.

A partir do fim do século XVII, na região atualmente conhecida como Zona da Leopoldina, por onde passa a hoje caótica avenida, as antigas sesmarias de jesuítas foram dando lugar a fazendas dedicadas, inicialmente, à plantação de açúcar e, posteriormente, a uma agricultura de subsistência que atendia o Rio de Janeiro, produção escoada pelos portos que existiam naquela faixa de litoral.2 Um deles era o que havia na praia de Maria Angu, atual praia de Ramos, nova configuração do balneário depois das obras da avenida Brasil.

No decorrer do século XIX, foi se alterando o perfil de ocupação da área com o fracionamento das propriedades rurais (em função de perda de rentabilidade), algo que se intensificou nos anos 1880, quando foram implantadas estações na ferrovia que unia o centro do Rio de Janeiro a Petrópolis. No início do século XX, com as reformas urbanas lideradas por Pereira Passos e Paulo de Frontin, foi instalada uma estação de barcas na Praia de Maria Angu, com ligação para a Ilha do Governador e para o Centro (Chrysostomo, 2019).

No transcurso do século XX, a maior ocupação da área se deveu tanto à necessidade de construir residências para a população que foi crescendo e sendo paulatinamente constrangida a deixar a região central quanto a iniciativas de instalação de um parque industrial nos bairros que compunham a Zona da Leopoldina3 (Abreu, 1987). Forjou-se uma zona periférica, um subúrbio do Rio de Janeiro.4

Há que ter em conta que a disponibilidade de terrenos a valores mais acessíveis também atraiu para a região pessoas de estrato médio como funcionários públicos, profissionais liberais, membros das Forças Armadas, gente que foi trabalhar nos serviços burocráticos das iniciativas industriais. Houve ainda o impacto da criação do Instituto Soroterápico, atual Fundação Oswaldo Cruz (Araújo, 2012), bem como da instalação de muitas unidades militares (Abreu, 1987).

Como aconteceu em outras regiões da cidade, inclusive em áreas de subúrbio, como Bangu (Santos Júnior, 2017; Melo; Santos Júnior, 2018) e Santa Cruz (Melo, 2019a), com o aumento do número de habitantes e os movimentos de urbanização, organizaram-se iniciativas esportivas diversas. Na Zona da Leopoldina, o futebol foi uma das modalidades em torno da qual mais se estruturaram agremiações, como o Bonsucesso Futebol Clube (criado em 1913) e o Olaria Futebol Clube (fundado em 1915, renomeado Olaria Atlético Clube em 1920).

Ambos foram se tornando agremiações multiesportivas no decorrer do tempo. O Olaria, inclusive, esteve envolvido com modalidades aquáticas/náuticas, aproveitando a proximidade de sua sede com a Praia de Maria Angu, que acolheu competições organizadas a partir de 1920, quando foi inaugurada uma seção para estimular a prática do remo, natação e saltos ornamentais.

- Mapa de bairros da cidade do Rio de Janeiro. Em azul, o bairro de Ramos. Em verde, a Zona da Leopoldina. Em vermelho, o Centro. Em rosa, as praias da Zona Sul. Em roxo, a Ilha do Governador. Em marrom, o município vizinho de Niterói

Figura 1: - Mapa de bairros da cidade do Rio de Janeiro. Em azul, o bairro de Ramos. Em verde, a Zona da Leopoldina. Em vermelho, o Centro. Em rosa, as praias da Zona Sul. Em roxo, a Ilha do Governador. Em marrom, o município vizinho de Niterói

De fato, no decorrer dos anos 1930-40, a Praia de Ramos tornou-se um balneário importante, local privilegiado de banhos de mar da região suburbana (Chrysostomo, 2019), considerado “pitoresco” pelos que a comparavam com a Zona Sul do Rio de Janeiro. Perceba-se que, de alguma forma, a nova ocupação do espaço interferiu nas suas representações. Ao seu redor, se estruturaram noções que, a princípio, eram contraditórias por construção histórica: subúrbio e praia. Retomaremos esse tema no decorrer do artigo.

- Foto da “pitoresca” praia de Maria Angu, que um cronista apresenta com as seguintes palavras: “Assim são as praias humildes, ignoradas, desconhecidas. Assim são as praias que as outras praias desconhecem”

Figura 2: - Foto da “pitoresca” praia de Maria Angu, que um cronista apresenta com as seguintes palavras: “Assim são as praias humildes, ignoradas, desconhecidas. Assim são as praias que as outras praias desconhecem”

Essa vocação de uso da Praia de Maria Angu/Ramos para atividades aquáticas/náuticas foi reforçada por certos projetos de urbanização destinados a estratos médios - como a Villa Gérson, apelidada de “Copacabana dos subúrbios” -, bem como por o poder público ter estimulado para as camadas populares a adoção de hábitos de diversão considerados saudáveis.5 Para Chrysostomo (2019):

[...] a disseminação do lazer popular na praia de Ramos pode ser lida de duas formas: de um lado, como um projeto de modernização que se processava por meio do consumo de novos produtos, a partir da produção simbólica de imagens especiais (positivas ou negativas) atiçadas pela mídia. Por outro, pela construção de uma imagem de ausências e de urgências, tornando o lazer mais um item nas lutas pelo direito à cidade.

Diretamente relacionada a esse processo de reconfiguração do espaço, surgiram no balneário, na década de 1940, dois clubes de iatismo que, a despeito de existirem até os dias de hoje, pouco são citados ou investigados: o Iate Clube de Ramos (criado em 1941) e o Carioca Iate Clube (em 1945). Dessa parte do litoral, em geral, somente se lembra do Piscinão de Ramos (em 2001), uma improvisada tentativa de devolver as condições de banho a uma praia já usualmente conhecida como de má qualidade, motivo mesmo de ironia entre os cariocas.6

- Em marrom, o Iate Clube de Ramos. Em roxo, o Carioca Iate Clube. Em rosa, o Piscinão de Ramos. Em verde, o Aeroporto Internacional/Galeão. Em laranja, o Hospital Universitário/UFRJ. Em azul, a avenida Brasil. Em vermelho, a Linha Vermelha (via expressa Presidente João Goulart)

Figura 3: - Em marrom, o Iate Clube de Ramos. Em roxo, o Carioca Iate Clube. Em rosa, o Piscinão de Ramos. Em verde, o Aeroporto Internacional/Galeão. Em laranja, o Hospital Universitário/UFRJ. Em azul, a avenida Brasil. Em vermelho, a Linha Vermelha (via expressa Presidente João Goulart)

Dado o perfil do iatismo, esporte usualmente mais praticado por grupos de classe alta ou média alta, pode até parecer esdrúxulo haver duas agremiações dedicadas à modalidade sediadas naquela região, hoje mais habitada por camadas populares e pela existência de muitas favelas. Se tivermos em conta os estigmas que no decorrer do tempo foram se forjando acerca dos subúrbios (Fernandes, 1995), devemos nos perguntar: que papéis aquelas sociedades náuticas podem ter desempenhado?

Tendo em conta que tais agremiações são indícios de um período importante da história do Rio de Janeiro no que tange à ocupação dos subúrbios, bem como à ampliação das iniciativas esportivas - chamando atenção para o fato de que o esporte não se desenvolveu apenas nas áreas consideradas mais nobres da cidade -, este estudo objetiva discutir as experiências do Iate Clube de Ramos e do Carioca Iate Clube em seus primeiros anos de funcionamento. O recorte temporal toma como marcas a fundação do primeiro (1941) e o momento em que ambos parecem ter se consolidado (1954).

Como o intuito é entender a repercussão pública das ações das duas sociedades náuticas investigadas, especialmente no tocante à questão territorial da cidade,7 como fontes foram utilizados periódicos publicados no Rio de Janeiro. Também foram usadas informações disponíveis no Diário Oficial, o que nos permitiu perceber melhor a relação das agremiações com os poderes públicos.

Trata-se de um estudo desenvolvido na fronteira entre a História do Esporte, que se debruça sobre o tema em distintos recortes temporais (Melo et al., 2013), e a Geografia do Esporte, dedicada a refletir sobre a distribuição espacial do fenômeno (Mascarenhas, 1999), ambas descortinando os mais diversos intervenientes que cercam a prática. Dialogamos com Lefebvre (2006, p. 9): “Se o espaço (social) intervém no modo de produção, ao mesmo tempo efeito, causa e razão, ele muda com esse modo de produção! Fácil de compreender: ele muda com ‘as sociedades’, se se quiser exprimir assim. Portanto, há uma história do espaço”. Especificamente, nesta investigação, interessaram os aspectos sociais, ainda que também tenham sido levadas em conta especificidades da economia, cultura e política.

Estimulou o desenvolvimento deste estudo a reflexão de Maciel (2010, p. 189) sobre o que chama de invisibilidade dos subúrbios, a equivocada compreensão de que são “um espaço à parte, segregado e fora da cidade”. Para a autora, trata-se de algo tão naturalizado que “parece não ter uma história, um começo, um desenvolvimento”. Isso tem implicações políticas claras: “Não sendo parte do passado da cidade, não teriam também lugar em seu presente nem, menos ainda, em seu futuro”.

Na verdade, podemos falar em algo mais contundente, um claro processo de negação da existência de um espaço da cidade, encarado usualmente apenas como fontes de problemas, uma eterna inadequação com um projeto de urbe que abandona as áreas periféricas. Ao estudar uma região do subúrbio, reivindicamos, portanto, o reconhecimento de sua importância na história do Rio de Janeiro, bem como na trajetória do esporte nacional.

O iatismo em Ramos: primeiros momentos (1941-1947)

Em novembro de 1941, os jornais cariocas anunciaram o que consideraram uma boa notícia para a Zona da Leopoldina, especialmente para o bairro de Ramos: a criação do Iate Clube de Ramos (Ramos..., 1941, p. 10).8 A cerimônia de fundação foi realizada na rua Gérson Ferreira, onde a agremiação se instalaria e se mantém até os dias de hoje.

O clube se instalou no número 24 do logradouro, mas a fundação foi realizada no número 80, escritório do Coronel Vieira Ferreira, importante personagem da região e empreendedor responsável pela já citada Villa Gérson. Muitas vezes, o empresário estimulou o desenvolvimento esportivo, encarando-o como sinal do caráter moderno e civilizado que pretendia dar a suas iniciativas. Acreditava que seu empreendimento poderia combater as visões estigmatizadas sobre o subúrbio, especificamente as que cercavam o bairro de Ramos.

Quais foram os protagonistas da iniciativa? De acordo com um cronista, tratava-se de “um grupo de conceituados esportistas residentes nos subúrbios leopoldinenses” (A fundação..., 1941, p. 15). Supostamente, eram alguns rapazes que identificaram as potencialidades do litoral local para desenvolver a modalidade. A formação societária era distinta das agremiações mais antigas do iatismo (Melo, 2019b) - havia poucos estrangeiros e mais gente de estratos médios, como proprietários ou gerentes de pequenos estabelecimentos comerciais e indústrias da região.

Há que ter em conta que Ramos e outros bairros da Leopoldina tinham uma elite local que se reunia em clubes que considerava mais distintos, entre os quais um que também foi fundado na década de 1940: o Social Ramos Clube. Num dos depoimentos colhidos por Jorge Paixão (2013), autor de um estudo sobre essa importante agremiação, um antigo morador da região, Laudir de Oliveira, citou o caráter insigne do Iate Clube:

[...] um esporte que eu fazia, além do futebol, porque pelada era todos os dias, soltar pipa era todos os dias, mas eu fazia também vela, iatismo, no Iate Clube de Ramos. Eu tinha um cunhado que era sócio de lá e era muito bom veleiro, Ivan Godofredo Ramos, e ele nos levou pra lá, que era uma vida, um ambiente mais sofisticado né, tinha o Cristóvão de Barros, aquele pessoal, e eu como comecei a velejar bem, então ele que tinha o barco mas me convidavam pra fazer regata (Paixão, 2013, p. 188).

Antônio Silva foi o primeiro comodoro do Iate Clube de Ramos, mas destacava-se mesmo a atuação de Oscar Vieira Ramos, membro da pioneira comissão diretora, bem como primeiro vice-comodoro. Despachante - portanto, não pertencente à classe alta - foi um dos personagens mais ativos do iatismo e do esporte na região, ocupando diversos cargos em clubes e federações (Portaria 105, 1941, p. 11).

Somente a partir de 1943, começaram a aparecer nos jornais notícias das atividades esportivas e sociais do Iate Clube de Ramos. A falta de informações nos anos iniciais é um indicador da ainda baixa movimentação da agremiação, mas também se deve ao fato de que atraiam a maior parte das atenções da imprensa as iniciativas do Iate Clube do Rio de Janeiro, antigo Fluminense Iate Clube.

De fato, faltava ao Iate Clube algo fundamental para a melhor estruturação de suas atividades, uma sede mais adequada, desejo que se materializou em 1944, anunciado com grande entusiasmo pela imprensa. A inauguração, que coincidiu com o 3º aniversário da agremiação, contou com a presença de muitos representantes de clubes (inclusive de todas as sociedades náuticas) e autoridades governamentais, até mesmo do presidente da república, Getúlio Vargas. Tratou-se de uma vasta programação composta por atividades cívicas, sociais, artísticas e esportivas.

A partir de então, a agremiação passou a frequentar mais amiúde as iniciativas do iatismo fluminense, sem perder sua vinculação com as questões da Zona da Leopoldina. Constantemente, o clube iria se propor a atuar por melhorias e dignificação da região. Um exemplo desse envolvimento era a distribuição, por ocasião do Natal, de brinquedos e alimentos para a população pobre do bairro de Ramos (O Natal..., 1944, p. 11). Essas ações eram encaradas como demonstração de que a elite local se preocupava com seu entorno.

A região era cheia de contrastes. Onde havia modestas casas de pescadores, a prefeitura, com apoio do governo federal, lançou um plano de construção de um moderno balneário, aproveitando-se mesmo as instalações do Iate Clube de Ramos. O intuito era executar o que considerava o maior projeto dessa natureza no país: “Nem Copacabana, nem Icaraí, nem Guarujá, nem praia nenhuma do Brasil” teria algo semelhante, no olhar de José G. Neiva Moreira, redator de O Jornal, futuro deputado federal e importante líder político (Em Ramos..., 1944, p. 1).

A intenção de oferecer uma moderna área de lazer para atender a população suburbana do Rio de Janeiro - não só com banhos de mar, mas também com atividades esportivas diversas - tinha relação com as características da gestão Henrique Dodsworth, prefeito escolhido por Vargas, alinhado a seus interesses. Foi um período marcado por grandes obras. A ideia do balneário estava articulada com a construção da avenida Brasil. Tratava-se de, supostamente, em definitivo, modernizar o espaço, adequá-lo a um novo perfil de cidade.

O Iate Clube estava diretamente envolvido no projeto. A ideia era transformá-lo numa agremiação que também atendesse a população de estratos sociais populares, com uma sede arrojada que se articulasse com a ideia ambiciosa do balneário. Sugeriu-se que poderia ser uma sociedade semipública a serviço do povo, algo distinto do que se passava com outros clubes náuticos. Moreira celebrou a iniciativa pelo potencial de atingir maior número de pessoas, sempre com um olhar simpático ao subúrbio:

D. Tereza é uma operária de Bangu. Traz, sempre aos domingos, os filhinhos para o banho de sol e de mar. [...] O balneário representará para D. Tereza e milhares de pessoas de sua classe uma grande e oportuna solução. [...] Ampliado, o Iate Clube de Ramos, de modo a transformá-lo numa grande entidade, eles serão, de certo modo, sócios entusiastas dessa organização (Em Ramos..., 1944, p. 1).

Essa intenção de articular as iniciativas dos poderes públicos com as ações do Iate Clube ficou ainda mais clara em 1945, quando se instalou na Praia de Ramos uma barraca do Serviço da Recreação Operária, entidade criada dois anos antes, ligada ao Ministério do Trabalho, cujo objetivo era coordenar o lazer dos trabalhadores, direcionando-o a partir dos interesses governamentais (Santos, A., 2007).

Situada ao lado da sede da agremiação náutica, a barraca tinha por intuito oferecer aulas de natação, serviços de acolhimento, empréstimo de material de banho e de exercícios físicos, bem como atividades esportivas para os que se filiassem ao Serviço. A cerimônia de inauguração foi marcada pela grande presença de autoridades e “populares pertencentes a vários sindicatos de classe” (INAUGURADA..., 1945, p. 4).

Note-se que, nessa ocasião, falou “em nome dos moradores da Zona Leopoldinense” o comodoro do Iate Clube de Ramos, Domingos Vassalo Caruso, personagem conhecido na região. Proprietário de muitos cinemas, foi uma liderança política local (presidente do Centro de Melhoramentos da Leopoldina), bem como do esporte carioca e nacional (foi presidente do Bonsucesso Futebol Clube e tesoureiro da Confederação Brasileira de Desportos).

Provavelmente, Caruso, que tinha boas relações com Vargas Neto,9 foi um dos principais responsáveis pelas articulações da sociedade náutica de Ramos com o governo federal. Além disso, a transformou numa interlocutora com a população do entorno, mediadora e catalizadora do desenvolvimento local. Um clube de elite, sim, mas sensível aos outros estratos sociais da região.

A agremiação também se articulou com outra iniciativa que contava com a simpatia governamental e contribuiu com o dinamismo da Praia de Ramos, inclusive para o desenvolvimento do iatismo na região: tornou-se mais ativa uma base dos escoteiros do mar10 que estava por lá instalada desde 1938.11 Naquele ano de 1945, por exemplo, foi promovida, pelos envolvidos com o escotismo, uma regata denominada “Volta do Governador”, tendo sido o Iate Clube convidado a participar de um dos páreos, bem como na organização do evento (Regata..., 1945, p. 6).

Esse conjunto de ações certamente contribuiu para que Ramos se tornasse a praia do subúrbio, buscada pela população da região e arredores, o que incluía também cidades da Baixada Fluminense. Ao mesmo tempo, essas iniciativas tentavam forjar uma nova representação para aquela zona, a não ser mais encarada como pitoresca, mas sim efetivamente moderna.

Em 1954, a comemoração do 4º aniversário do Iate Clube, largamente anunciada pelos jornais do Rio de Janeiro, é um indicador de como se estruturara a sociedade náutica. Apoiada por estabelecimentos comerciais da Zona da Leopoldina, foram organizados um baile e uma apresentação musical - atividades sociais que se tornaram usuais na sua trajetória -, mas destacaram-se mesmo as competições de diferentes esportes (entre os quais remo, atletismo, ciclismo e motociclismo, além do iatismo) nas quais tomaram parte associados da agremiação, atletas de outros clubes, bem como filiados ao Serviço de Recreação Operária (Os festejos..., 1945, p. 3).

Mais ainda, integrando o calendário de celebrações, promoveu-se o Dia da Mocidade Escolar, evento no qual estudantes dos colégios da região, em conjunto com os escoteiros do mar, disputaram provas esportivas diversas na sede da Praia de Ramos. Note-se, uma vez mais, como suas ações tinham impacto no entorno, envolvendo os mais diversos personagens da região.

O Jornal dos Sports dedicou uma página inteira para celebrar as conquistas do Iate Clube de Ramos. Para um cronista, era de destacar o patrimônio que possuía em apenas quatro anos de atividades, inclusive uma flotilha respeitável e uma sede funcional e de bom gosto. Mais ainda, sugeriu que, como estava instalado numa região ainda menos desenvolvida do ponto de vista esportivo, a agremiação “muito poderá fazer pela eugenia da mocidade brasileira” (O iatismo..., 1945, p. 4). Por meio do esporte, revertia-se, mesmo que parcialmente, as usuais considerações negativas sobre o subúrbio, estabelecendo-se mesmo uma expectativa de contribuição para um tema que preocupava a cidade: a educação da juventude.

O novo comodoro do Iate Clube, Hildebrando Bayard de Melo12, adotou a orientação e semelhante, procurou destacar que a agremiação era mais do que uma entidade recreativa, estando a serviço dos jovens do subúrbio. Seu intuito seria contribuir com o progresso do país e com a segurança nacional. Por isso, ressaltava a importância de o governo do estado e a prefeitura estimularem a iniciativa. Obviamente, esse discurso tinha também intenções estratégicas para a consolidação do clube. De toda forma, anunciavam-se planos de intervenção material e simbólica na região, em especial no bairro.

Nessa mesma ocasião, o Olaria e o Bonsucesso publicaram congratulações ao clube que, na sua visão, “era um batalhador intemerato em prol da causa eugênica dos desportistas leopoldinenses”, “grêmio cuja finalidade enobrece os esportes da nossa terra” (O iatismo..., 1945, p. 4). Da mesma forma agiram alguns comerciantes locais como a D. V. Caruso & Filhos, o Colégio Cardeal Leme e o Café, Bar e Restaurante Rosário.

Esses são indícios da já citada articulação do Iate Clube com seu entorno, algo que se manifestava também quando em sua sede acolhia outras agremiações da região para um dia de eventos, bem como incentivava competições entre equipes dos bairros próximos. A sociedade náutica de Ramos, portanto, vinculava-se a “causas nacionais”, mas também se declarava disposta a contribuir com o desenvolvimento local a partir da ideia de que dever-se-ia forjar um orgulho de ser da Zona da Leopoldina.

Eram sim ações de um grupo de elite da região, disposta a reivindicar a mesma respeitabilidade da qual gozava a elite da Zona Sul, mas que também promovia ações tendo em vista e envolvendo grupos de estrato médio e camadas populares da Zona da Leopoldina, algo que aumentava a sua credibilidade nos bairros do entorno e forjava uma visão positiva acerca de sua maneira de se portar publicamente.

O Iate Clube de Ramos foi progressivamente se tornando poliesportivo. Na reforma dos Estatutos promovida em 1945, deixou-se claro que um dos objetivos era “Incentivar o esporte náutico à vela e a motor”, mas também “permitir o desenvolvimento de esportes físicos, com exclusão do futebol association, futebol rugby, catch as catch can, capoeiragem”, modalidades que eram consideradas mais “violentas” (Diário Oficial da União, 1945a, p. 53).

Ao não se ligar ao futebol, o Iate Clube se afastava das fortes rivalidades que havia na região (especialmente entre o Olaria e o Bonsucesso). Não foi incomum, aliás, que associados das agremiações mais importantes da Leopoldina também se filiassem à sociedade náutica, assumindo mesmo cargos de direção. Uma vez mais, se percebe o intuito de atuar como aglutinadora daqueles que viviam nos bairros ao seu redor.

Com esse conjunto de realizações e relações, foi se ampliando a repercussão pública do Iate Clube de Ramos. Um indício é que tenha passado a ser frequente motivo de elogiosas reportagens publicadas nas páginas dos jornais fluminense. Destacava-se sempre a beleza de sua sede, bem como sua intenção de contribuir para o desenvolvimento da Zona da Leopoldina. Definitivamente, isso se tornara uma marca da agremiação, assim como uma forma de propaganda positiva da região, forjando uma representação positiva pouco comum no que tange aos subúrbios.

Nesse momento de tamanho sucesso, houve uma cisão interna no Iate Clube de Ramos e foi fundado o Carioca Iate Clube, tendo como comodoro o ativo líder Oscar Vieira Ramos. Os Estatutos da nova agremiação tinham mesmo grande semelhança com os da antiga, inclusive no que tange aos objetivos (Diário Oficial da União, 1945b, p. 74) Sua formação societária era também muito similar.

Alguns anos depois, um cronista sugeriu que, “ao contrário do que sucede em muitos casos semelhantes”, a separação teria sido uma decisão “providencial” (Diário da Noite, 21 out. 1948, p. 10). Para ele, ambos mantinham um “acentuado ritmo de progresso”, bem como viviam “na melhor harmonia, tendo havido apenas divergências do ponto de vista que duas fortes correntes esposavam”. De fato, não encontramos indícios de conflitos entre associados e dirigentes. Houve mesmo regatas promovidas em conjunto, “os dois clubes trabalhando pelo fim em comum do engrandecimento do esporte à vela”, como afirmou certa feita um periodista (Diário da Noite, 27 ago. 1948, p. 11).

Que divergências teriam surgido? O maior delas era a perspectiva do que deveria ser uma agremiação de iatismo, mais ou menos aberta, mais ligada ao local ou mais integrada ao meio da modalidade, os do Iate Clube de Ramos apostando numa atuação mais ampla, a partir de compromissos com a região, e os do Carioca Iate Clube desejando maior dedicação ao esporte náutico propriamente dito.

O Carioca Iate Clube foi fundado na Ilha do Fundão, mas logo transferido para a Praia de Ramos. Embora tenhamos conseguido poucas informações sobre suas atividades nos primeiros anos, percebe-se uma rápida estruturação. Em 1947, começou a se tornar mais visível pela promoção de um importante evento, a Taça Força Aérea Brasileira, que contava com o apoio e o prestígio do Ministério da Aeronáutica. Na primeira edição, já teve 78 inscritos (Almeida, 1945), um número excelente para uma nova agremiação; na verdade, um indício de que tinha relação com antigas experiências do iatismo. Houve ampla participação de sociedades náuticas do Rio de Janeiro, inclusive do Iate Clube de Ramos.

Àquela altura, se percebia maior integração das agremiações da Zona da Leopoldina com outras sociedades de iatismo. Um marco foi a abertura da temporada de vela de 1947, promovida pela Federação Metropolitana de Vela e Motor em colaboração com o Iate Clube do Rio de Janeiro (Desfile..., 1947, p. 5). O Iate Clube de Ramos e o Carioca Iate Clube participaram da iniciativa ao lado dos principais clubes náuticos.

Não foi o único evento que contou com a presença de outras sociedades náuticas no qual os Iates Clubes da Leopoldina tomaram parte. Em breve, isso aconteceria regularmente.

Consolidando o iatismo em Ramos (1948-1954)

O Iate Clube de Ramos, há quatro anos, evidenciando sua ascensão, inaugurou sua nova sede. [...] Parecia, assim, que o Ramos teria a estabilidade de uma vida financeira por muitos anos, mas tudo se passou tão rapidamente que o clube já pensa em ampliar a sede e melhorar a atual flotilha. E tão acentuado vem sendo o trabalho nesse sentido que nos surpreende o que o prestigioso clube vem realizando (Diário da Noite, 30 jun. 1948, p. 6).

O cronista do Diário da Noite, entusiasta dos esportes, assim registrou os avanços do Iate Clube de Ramos na transição dos anos 1940-50. De fato, nos jornais, a agremiação começou a ser chamada de “Grêmio Orgulho dos subúrbios”, considerada “um dos maiores pontos de reunião da elite leopoldinense” (Um dos maiores..., 1948, p. 12). Como já observado, assumira tal identidade e contribuía para forjar representações mais positivas sobre o bairro de Ramos, além de dinamizar a região com suas iniciativas.

Contribuiu para fortalecer a fama do clube, a maior intensidade das atividades sociais, especialmente os bailes, mais ainda os de carnaval e as festas juninas. Para João Machado - um importante cronista do Jornal dos Sports, responsável por uma produção marcada pelo caráter crítico e pela valorização das agremiações do subúrbio, reconhecidas como local adequado para a educação e integração social (Couto, 2017) - essa era uma das facetas mais notáveis da sociedade náutica, “o congraçamento das famílias do bairro que alegram e movimentam a sua sede desde as primeiras horas do dia” (Yate Clube de Ramos, 1949, p. 5). No seu olhar, vigorava um estilo de vida leve e saudável: “nenhuma formalidade ou etiqueta exagerada e sim absoluto respeito como se a sede do Iate Clube de Ramos constituísse um lar de grandes proporções”. Certamente, a frequência da sede era maior por parte de grupos economicamente privilegiados. Todavia, como vimos, em muitas ocasiões se contemplou a participação de estratos médios e camadas populares.

Outro contributo para forjar uma boa representação do Iate Clube de Ramos foi o fato de que seguiu ampliando seu perfil esportivo, se envolvendo com o motociclismo - que chegou a rivalizar com o iatismo na repercussão pública da agremiação, bem como com o voleibol e basquetebol, modalidades para as quais construiu uma quadra olímpica, também usada por outras agremiações da Zona da Leopoldina. Essa ação foi mais uma contribuição para o desenvolvimento da região, estimulando jovens a praticar novas modalidades.

Potencializou essas iniciativas o fato de que ampliara-se a sede em função de o governo federal ter concretizado a doação do terreno (Iate..., 1948, p. 11). A conquista foi muito celebrada pela imprensa, considerada um reconhecimento do valor do Iate de Ramos por parte do poder público. O lançamento da pedra fundamental das novas instalações contou, uma vez mais, com a presença de muitas autoridades, entre as quais o prefeito Mendes de Moraes e representantes da presidência da república.13

Na mesma ocasião, a propósito, foi inaugurado o balneário previsto havia anos. Seguiam se cruzando as iniciativas do Iate Clube, os interesses da Zona da Leopoldina e projetos políticos para ocupar o tempo livre dos populares. É mais um indício de que as iniciativas da agremiação contemplavam interesses outros que não os estritamente ligados às elites que compunham seu corpo societário principal, ainda que, como já observamos, também se tratasse de uma aliança estratégica para os interesses da sociedade náutica.

A nova sede também contribuiu para outro avanço na estruturação da agremiação. Integrado às ações da Federação Metropolitana de Vela e Motor, assim como ocorreu com o Carioca Iate Clube, tornou-se cada vez mais frequente sua participação nas regatas do iatismo fluminense. Seus atletas, em geral, não obtinham resultados notáveis. De toda forma, há que se destacar não só a maior presença nas competições como também o fato de que as sociedades náuticas de Ramos organizavam provas que contavam com amplo envolvimento dos outros clubes dedicados à modalidade.

Com isso, pessoas de um perfil diferente chegaram, mesmo que eventualmente, ao subúrbio. Nas regatas dos clubes de Ramos, as raias, ainda que também traçadas na Baía de Guanabara, eram distintas das usuais das enseadas de Botafogo e de Niterói. O litoral da Leopoldina, Ilha do Governador e Ilha de Paquetá passou a acolher o bailado das velas, não poucas vezes acompanhadas pelo público das areias da Praia ou das ínsulas citadas, bem como de embarcações ancoradas no mar.

Imagens da Enseada de Ramos mais amiúde chegaram aos periódicos, uma visibilidade distinta daquela antes conferida pelos banhos. Não se tratava mais de se destacar somente o aspecto pitoresco daquelas praias mais distantes, mas também o glamour que cercava as regatas.

Começaram até mesmo a ser noticiadas cerimônias que, mesmo usuais entre todas as agremiações, nunca eram citadas no caso das sociedades de Ramos. Esse foi o caso do batismo de uma embarcação (do Iate Clube) (O batismo..., 1952, p. 4). As representações fugiam completamente do usual que se publicava acerca do subúrbio, exaltando o bom gosto e o refinamento das ocasiões. Era uma outra imagem do subúrbio, diferente daquela que usualmente veiculavam, ligando a região ao atraso. Isso interessava diretamente à elite local, que se via representada em padrões similares aos da elite da Zona Sul.

- Imagem de prova náutica na Enseada de Ramos

Figura 4: - Imagem de prova náutica na Enseada de Ramos

Vale citar que uma das maiores provas da época, a já citada Taça Força Aérea, promovida pelo Carioca Iate Clube, chegou a ser alcunhada de “Grande Prêmio Brasil de Iatismo”, tal sua importância. A imprensa cobria intensamente o evento, usualmente elogiando a agremiação organizadora por suas contribuições para o desenvolvimento do iatismo nacional.

O Carioca promoveu também celebradas regatas em homenagem à Marinha. Era uma forma de manter contato com instâncias importantes de poder, mas também de estabelecer boas relações com a vizinhança. Na Enseada de Ramos e na Ilha do Governador, havia muitos quartéis das duas forças armadas.

Além disso, o Ministério da Marinha auxiliou o clube nos aterros necessários à melhoria de seu cais que, durante anos, teve problemas de navegabilidade. Essa obra era fundamental para os planos da nova sede. Como no caso do Iate Clube, essa foi uma importante conquista. A iniciativa também contou com o incentivo do prefeito Ângelo Mendes de Moraes, que a inseriu num projeto de urbanização da Praia de Ramos. Perceba-se que, mesmo não sendo sua intenção central, as ações do Carioca também tiveram impacto no desenvolvimento da região.

Com o sucesso de suas iniciativas, o Carioca Iate Clube também foi ampliando sua presença pública. Uma das estratégias que a diretoria adotou foi estabelecer uma forte relação com a imprensa. Outra foi, graças às articulações de Oscar Vieira Ramos, seguramente a principal liderança da agremiação durante anos, vincular seu nome aos grandes acontecimentos esportivos da cidade. Por exemplo, o comodoro percebeu a notável popularidade do futebol, ainda maior em função do Sul-Americano de 1949 e da Copa do Mundo de 1950 - ambos realizados no Rio de Janeiro -, e promoveu regatas em homenagem aos dirigentes do velho esporte bretão (A Confederação..., 1949, p. 12).

Assim sendo, da mesma forma que saudara o Iate Clube de Ramos, o cronista não deixou de tecer loas à outra agremiação da Leopoldina:

Por mais que se acompanhe a vida da querida agremiação, sente-se que o pouco tempo de existência do Carioca não serve como atestado do que ele na realidade evidencia. Seu progresso foi impressionante e sua organização é das melhores. A ordem impera no Carioca e a camaradagem entre seus associados fez do clube uma autêntica e entusiasta família. Dá gosto conviver, horas que sejam, em meio de gente tão simples, tão boa e tão pura de sentimentos idealistas (Diário da Noite, 19 out. 1948, p. 11).

Quais seriam as diferenças entre as duas agremiações de Ramos? O Carioca tinha uma vida social mais restrita e era menos disposto a promover integrações com a comunidade local. Era, àquele momento, muito dedicado ao iatismo. Já o Iate Clube de Ramos, além de organizar com frequência eventos festivos e ser mais articulado com o entorno, incentivava mais a prática de outros esportes.

Se ambos se envolveram com as iniciativas do iatismo fluminense, foi mais intensa a participação do Carioca, que chegou a promover competições com clubes de outros estados. Foi um dos protagonistas da organização da Taça Yachting Brasileiro, uma iniciativa da revista de mesmo nome, evento que contou com a participação de equipes de várias cidades brasileiras. A largada se deu nas águas em frente a sua sede (Taça..., 1954, p. 6).

De toda forma, ambos eram parceiros à busca de um lugar no mundo do iatismo. A imprensa comumente apoiava suas iniciativas, mas a dinâmica das sociedades de vela era mais restrita (Melo, 2019b). Há que se lembrar que as agremiações da Leopoldina eram societariamente diferentes de suas congêneres. Eram uma expressão de outra elite que se espalhava por regiões periféricas da capital.

É verdade que se tratava de um subúrbio distinto, como bem definiu um cronista: “Ramos é um bairro diferente de todos os outros bairros da Zona Norte. Por uma simples razão: em Ramos há uma praia. E a praia é a própria vida daquele subúrbio da Leopoldina” (Transformada..., 1953, p. 9). Ainda assim, era um subúrbio, suscetível aos estigmas que cercavam a região.

Se considerarmos que o período foi marcado pela construção de representações positivas acerca da Zona Sul carioca, boa parte delas relativas à proximidade do mar, em contraponto a representações negativas do subúrbio, mais distante das praias (Cardoso, 2014), podemos nos perguntar se esses olhares não terão atingido também os clubes de Ramos, mesmo que as regatas fossem consideradas experiências mais glamorosas e civilizadas. De fato, como já enfatizamos, suas iniciativas apresentavam e ajudavam a forjar outras visões sobre a periferia.

Não conseguimos saber que representações havia sobre as agremiações da Leopoldina por parte das outras sociedades náuticas. Vejamos, todavia, um indício interessante. Em 1953, a antiga entidade representativa do iatismo fluminense transformou-se na Federação Metropolitana de Vela, ficando a motonáutica à cargo de outra liga. Nos Estatutos, se dividiram os associados em três grupos (Diário Oficial da União, 13 set. 1954, p. 43). Os “fundadores” eram os mais antigos: Iate Clube do Rio de Janeiro, Iate Clube Brasileiro, Rio Yacht Clube, Clube de Regatas do Flamengo, Clube dos Caiçaras - todos situados em áreas mais valorizadas de Rio de Janeiro e Niterói.

Vejamos a diferença para os considerados “filiados”, agremiações mais jovens, localizadas em outras regiões da capital: Clube Naval (na época, ainda no Centro) e Clube de Regatas Vasco da Gama (Centro), além do Iate Clube de Ramos e o Carioca Iate Clube. A exceção era o Clube de Regatas Guanabara (Botafogo). Havia ainda os “suplementares”: Iate Country Clube (não conseguimos identificar o local de sua sede), Cocotá Esporte Clube (Ilha do Governador), Jequiá Esporte Clube (Ilha do Governador) e Tijuca Tênis Clube (Tijuca). Todos estavam estabelecidos em bairros periféricos.

Esse é um indício conclusivo sobre uma possível diferença de status entre as sociedades náuticas? Certamente não. Pode ser apenas uma questão de antiguidade. Ou da peculiaridade de cada clube, com maior valorização dos que se dedicavam mais ao iatismo. Mas não se deve desprezar que era, no mínimo, uma expressão de que havia diferenças de consideração entre as agremiações.

Mais ainda, de alguma maneira, tais distinções guardavam semelhanças com o “mapa de status da cidade”, no qual a Zona Sul lograva maior reconhecimento, sede de um determinado projeto civilizatório que, na mesma medida, destinava aos subúrbios uma representação menos positiva, em muitos casos efetivamente negativa.

- Mapa dos bairros da cidade do Rio de Janeiro. Em rosa, os clubes considerados “fundadores”. Em azul, os “filiados”. Em verde, os “suplementares”

Figura 5: - Mapa dos bairros da cidade do Rio de Janeiro. Em rosa, os clubes considerados “fundadores”. Em azul, os “filiados”. Em verde, os “suplementares”

De toda forma, o que se pode perceber é que, a despeito de existirem ou não ressalvas por parte dos outros clubes, as duas agremiações náuticas de Ramos tinham se consolidado naqueles meados de anos 1950. Nesse cenário, chamaram a atenção e veicularam imagens sobre o subúrbio que contrapunham as usuais considerações de que se tratava de um lugar menos valorizado, degradado, afastado do que se vivia nas áreas mais nobres do Rio de Janeiro. A esse reboque, serviram aos interesses da elite local. Mas também efetivamente contribuíram para uma nova dinâmica do local com suas iniciativas. Foram, enfim, agentes importantes na produção daquele espaço.

Considerações finais

A criação do Iate Clube de Ramos e do Carioca Iate Clube é expressões de dois importantes movimentos perceptíveis no Rio de Janeiro dos anos 1940. Um deles tem a ver com a própria dinâmica da cidade, a expansão do lugar de moradia da população em função das reformas urbanas, a instalação de novos meios de transporte e a diversificação da economia, levando para os subúrbios gente não só das camadas populares, como também de diferentes estratos sociais, observando-se inclusive a conformação de uma elite que aspirava as mesmas condições de vida encontradas nas regiões mais nobres.

O outro movimento importante tem relação com o próprio desenvolvimento esportivo. A prática já se espraiava por toda a cidade, constituindo-se num dos maiores interesses da população, que acompanhava tudo pelos jornais e por emissoras de rádio e que também se envolvia na dinamização de clubes locais. Mesmo em torno do iatismo, um esporte originalmente mais ligado a grupos de classe alta e média alta, houve experiências organizadas no subúrbio.14

As duas agremiações são expressões da heterogeneidade do subúrbio. Enquanto os envolvidos com o Iate Clube de Ramos pareciam desejar uma agremiação mais ampla - tanto do ponto de vista das atividades sociais quanto dos esportes praticados -, os associados do Carioca se dedicaram mais diretamente ao iatismo, e não a outras modalidades ou à promoção de eventos festivos. O primeiro se mostrava mais articulado com o entorno, afirmando-se “leopoldinense”, enquanto o segundo aspirava estreitar relações com o mundo do iatismo. De toda forma, ambas deram importantes contribuições simbólicas e materiais ao desenvolvimento local e à produção daquele espaço.

Ambas também, de fato, procuraram se inserir no cenário do iatismo e lograram participar ativamente das iniciativas. Tratou-se tanto de uma forma de afirmação do local quanto uma reivindicação de participação nas experiências da cidade como um todo. Mas teriam vencido as restrições dos clubes mais antigos, se é que as havia? Teriam também sido tachadas com as representações negativas que pendiam sobre o que se passava no subúrbio? Deve-se ter em conta que seu funcionamento e sua formação societária - mesmo do Carioca - eram distintos, com maior presença de gente de estratos médios e pouca participação de estrangeiros (como era usual nas agremiações da Zona Sul do Rio de Janeiro e de Niterói).

Talvez se possa sugerir que tenha acontecido com os clubes de iatismo da Zona da Leopoldina algo similar ao que ocorria com o próprio balneário onde se localizavam. Como lembra Chrysostomo (2019), em determinado momento, chegou-se a sugerir que a Praia de Ramos era uma “Copacabana dos subúrbios”. A despeito desse olhar, aquele litoral nunca atingiu o mesmo patamar de representação e consideração que o da Zona Sul. Algo semelhante pode ter se passado com as sociedades náuticas, o que não diminui sua importância para a região, para a cidade e para o desenvolvimento esportivo.

Com o tempo, a dinâmica urbana do Rio de Janeiro teve forte impacto na experiência das agremiações náuticas da Praia de Ramos, tornando-as praticamente invisíveis para quem estuda a história da cidade.

É claro o impacto da abertura da avenida Brasil no perfil da região da Leopoldina: de fazendas de abastecimento a local bucólico de moradia, a sítio industrial, a local de moradia de populares (Torres, 2018). De fato, com o fim do governo Vargas, reduziu-se o investimento no lazer popular, diminuindo a atenção pública dedicada à Praia de Ramos. Mais ainda, logo começaria a maior ocupação de outra região oceânica da Zona Oeste, a Barra da Tijuca. Cada vez mais, destinava-se ao subúrbio o “uso sujo” da cidade.

O contínuo crescimento populacional, induzido até mesmo pela remoção de comunidades da Zona Sul para as Zonas Norte e Oeste, bem como o abandono de maiores cuidados com a região, problema que se foi agravando com as sucessivas crises econômicas - que levaram ao fechamento de boa parte das iniciativas industriais e comerciais da região -, concorreram ainda mais para o desgaste urbano do subúrbio. As favelas foram uma decorrência desse processo. A violência crescente, mais um sinal do descaso dos poderes públicos.

As trajetórias dos clubes de iatismo de Ramos nos ajudam a refletir sobre os movimentos de urbanização, proletarização, surgimento dos subúrbios e diversificação esportiva, enfim, sobre o crescimento das desigualdades na história do Rio de Janeiro.

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A região tornou-se assim conhecida pelo nome da empresa que, na transição dos séculos XIX e XX, assumiu a ferrovia, a Leopoldina Railway.
Sobre a ocupação dos subúrbios do Rio de Janeiro, ver Fernandes (1995), L. Santos (2011) e Moreira (2013).
Devem-se ter em conta as características do Estado Novo, em vigor a partir de 1937. Regime autoritário instituído por um golpe de Estado, tinha características que o aproximavam do fascismo. Liderado por Getulio Vargas, já no poder desde 1930, articulou repressão política, controle por meio de censura e forte intervenção cultural, bem como propostas econômicas de desenvolvimento pela indução do processo de industrialização. Para encaminhar tais interesses, entre outras iniciativas, promoveu ações no âmbito do esporte, atividades físicas e espaços/meios de diversão. Para mais informações, ver Drumond (2008).
Sobre o Piscinão de Ramos, ver Medeiros (2006).
Trabalhamos com a ideia de produção do espaço de Henri Lefebvre (2006). Como bem observa Schmid (2012, p. 3): “Espaço (social) é um produto (social). Para entender esta tese fundamental, é necessário, antes de tudo, romper com a concepção generalizada de espaço, imaginado como uma realidade material independente, que existe em ‘si mesma’. Contra tal visão, Lefebvre, utilizando-se do conceito de produção do espaço, propõe uma teoria que entende o espaço como fundamentalmente atado à realidade social - do que se conclui que o espaço ‘em si mesmo’ jamais pode servir como um ponto de partida epistemológico. O espaço não existe em ‘si mesmo’. Ele é produzido”.
Outros jornais também anunciaram a novidade, entre os quais, o Diário Carioca e O Imparcial.
Vargas Neto era sobrinho de Getulio Vargas e foi membro do Conselho Nacional de Desporto, presidente da Federação Metropolitana de Futebol e vice-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro.
Tratava-se de uma instalação onde se disponibilizavam ancoradouro, oficina de reparos, espaço administrativo e cantina. Perdeu parte de sua boa condição com a construção da Avenida Brasil.
Na verdade, desde a década de 1920, a praia de Maria Angu era usada por escoteiros do mar, especialmente pelo 15º grupo, que tinha sede no Olaria Atlético Clube.
Na época, Melo era capitão do Exército. Fez longa carreira nas Forças Armadas, chegando a general.
O departamento de urbanismo da prefeitura chegou a contribuir com a preparação da planta da nova sede. Moraes foi um militar de grande influência. Seu tempo à frente da prefeitura passou para a história em função da construção do Estádio Mário Filho (Maracanã). Foi uma gestão marcada por muitos melhoramentos na zona privilegiada da cidade e pela iniciativa de regularizar moradias das camadas populares, notadamente de erradicar as favelas (Valladares, 2005).
Vale mencionar que, além dos clubes de Ramos, num dos mais afastados bairros do Rio de Janeiro, o Iate Clube de Sepetiba foi fundado em 1947.