A produção do espaço a partir da tríade lefebvriana concebido/percebido/vivido

Palavras-chave: Produção do espaço, concebido, percebido, vivido, Lefebvre, Urbano

Resumo

Discutimos neste artigo a importância da análise espacial para o entendimento da realidade a partir da tríade concebido/percebido/vivido presente na obra de Henri Lefebvre intitulada A produção do espaço. Partimos do princípio que a produção do espaço implica não só produção material, mas também de vida, de cultura, do modo de ser urbano, que tende a se generalizar em escala mundial, ainda que mantendo particularidades.

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Biografia do Autor

Glória da Anunciação Alves, Universidade de São Paulo

Professora do Departamento de Geografia da Faculdade de Fiolosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Referências

BERMAN, M. Tudo o que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

FIORAVANTI, L. M. Do agronegócio à cidade como negócio: a urbanização de uma cidade mato-grossense sob a perspectiva da produção do espaço. São Paulo, 2018. Tese (Doutorado em Geografia Humana) - FFLCH, USP.

LEFEBVRE, H. La producción del espacio. Madrid: Capitan Swing, 2013.

SMITH, N. “Gentrificação, a fronteira e a reestruturação do espaço urbano”. GEOUSP: Espaço e Tempo (Online), (21), 2007, pp. 15-31. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2007.74046. Acesso em: 14 jul. 2010.

Publicado
2019-10-18
Como Citar
Alves, G. (2019). A produção do espaço a partir da tríade lefebvriana concebido/percebido/vivido. GEOUSP Espaço E Tempo (Online), 23(3), 551-563. https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2019.163307
Seção
Dossiê Henri Lefebvre e a problemática urbana

Este artigo é resultado da análise de parte da obra de Henri Lefebvre a partir da tríade concebido/percebido/vivido, que ele trabalha sobretudo no livro A produção do espaço. Primeiramente, colocamos em relevo a importância da análise espacial para compreender a realidade atual, bem como deixamos claro que toda análise da produção do espaço parte de uma perspectiva ampla desse conceito, a saber, que a produção do espaço implica não só produção material, mas também de vida, de cultura, do modo de ser urbano. Por fim, debatemos a tríade concebido/percebido/vivido, muito utilizada, mas muitas vezes de modo banalizado, o que culmina na perda de sua potência explicativa, tão necessária na atualidade.

Frente a um mundo onde o processo de reprodução do capital parece avassalador, no qual o espaço é um dos elementos dessa reprodução, principalmente em momentos de crise da reprodução capitalista (Smith, 2007), é fundamental entender o processo de produção do espaço. Nessa direção, debatemos conceitualmente as dimensões da tríade lefebvriana concebido/percebido/vivido.

Mas o que se entende por produção do espaço? Num primeiro momento - e retomamos a questão adiante -, respondemos que, mais que apenas a materialidade (edificações, infraestrutura geral e viária), a produção do espaço significa também um modo de vida, no caso urbano, existente e referente a um dado momento histórico. Para compreendê-lo, é preciso analisar as relações e as formas de produção existentes no processo de produção espacial.

Falamos aqui de um processo que é mais intenso nas metrópoles e que, a partir delas, é onde se concentram as inovações e processos de produção em seu sentido lato. De fato, é a partir das metrópoles que se irradiam esses processos tendencialmente a todos os espaços, ainda que eles tenham particularidades, o que implica maior ou menor velocidade nas transformações socioespaciais.

Assim o espaço, parcelado e vendido como uma mercadoria, e fundamental para a reprodução do capital principalmente em momentos de crise, aparece como uma realidade cotidiana nas metrópoles, em especial no caso brasileiro. Mas esse processo (de parcelamento, fragmentação do espaço como mercadoria) já foi irradiado e está presente na maior parte das cidades brasileiras, sobretudo naquelas com algum atrativo turístico ou produtivo (inclusive agropecuário). Desse modo, em lugares onde aparentemente não haveria a necessidade da expansão urbana, temos o surgimento de inúmeros loteamentos urbanos,1 ainda que não exista localmente demanda para tanto. Mas como nesses casos o espaço aparece como mais uma mercadoria a ser especulada e comercializada, ele (o espaço) é posto à venda, em parcelas, para investimentos futuros ou aplicação imediata.

Além da materialidade temos também, tendencialmente, a irradiação da vida metropolitana, principalmente com destaque para a intensificação da velocidade e ritmo de vida. Mesmo nos momentos em que se nega a vida urbana metropolitana, nos momentos de “fuga” dessa vida, em geral marcados pelo lazer de um fim de semana prolongado ou de férias, reproduzem-se os ritmos e padrões metropolitanos: é a comida a quilo ou, nos casos mais extremos, a fast food, em vez do tempo lento que transcorre nos lugares onde, em geral, torna a espera pela comida uma verdadeira tortura para os que vivem na grande cidade e que estão acostumados com a rapidez, inclusive nos momentos de se alimentar. Além disso, impõe-se a necessidade de estar sempre fazendo alguma coisa, previamente programada no pacote turístico, não existindo tempo para o ócio, afinal, tempo é dinheiro, inclusive no espaço do lazer.

As transformações espaciais ocorridas por meio da produção e/ou reprodução espacial implicam e, simultaneamente, são resultados de processos socioespaciais em que há rupturas, mas também permanências.

Nesse sentido, ao falar nos processos de ruptura, a reprodução socioespacial supõe uma apropriação do espaço preexistente pela qual penetram modificações lentas na espacialidade consolidada até o ponto de ruptura, quando então há transformações, muitas vezes muito radicais, a ponto de não mais se perceberem as antigas lógicas que constituíam os espaços de outrora, com a criação de espaços com conteúdos aparentemente muito diferentes dos anteriores.

Recorremos aqui a uma passagem de Berman (1986) que ilustra esse processo de transformação socioespacial a partir das rupturas. O autor analisa a obra Fausto, de Goethe, no trecho a que se refere a Fausto como o fomentador, aquele que depois de ter amado e enriquecido se coloca como projeto transformar produtivamente a natureza, fazendo-a mais que simplesmente fornecedora de recursos naturais. O projeto de Fausto: vincular o mar a ações humanas criando portos, canais, possibilitando que grandes embarcações pudessem garantir o comércio e a troca de mercadorias em grande escala. Trata-se, na obra, do momento de transformação do feudalismo ao capitalismo, donde não se tratava só de novas criações espaciais, mas também do surgimento de um novo homem. Nesse processo de transformação, existe a necessidade da articulação política, com o surgimento do Estado moderno, que possibilita no processo geral de produção a liberação da mão de obra, antes confinada aos feudos, que se torna livre para vender a sua força de trabalho a quem quiser por ela pagar.

Como observamos, no processo de transformação do espaço a partir de sua (re)produção, temos mudanças e permanências. Berman (1986, p. 65) mostra que:

À medida que Fausto supervisiona seu trabalho, toda a região em seu redor se renova e toda uma nova sociedade é criada à sua imagem. Apenas uma pequena porção de terra da costa permanece como era antes. Esta é ocupada por Filemo e Báucia, um velho e simpático casal que aí está há tempo sem conta. Eles têm um pequeno chalé sobre as dunas, uma capela com um pequeno sino, um jardim repleto de tílias e oferecem ajuda e hospitalidade a marinheiros náufragos e sonhadores. Com o passar dos anos, tornaram-se bem-amados como a única fonte de vida e alegria nessa terra desolada.

Nessa passagem, temos um amplo registro das mudanças: o espaço se transforma, a sociedade também, mas ainda há resquícios do passado (talvez idealizado), e são Filemo e sua mulher, Báucia, bem como o espaço onde vivem, que insistentemente lembram outro tempo, outra forma de produzir e viver.

Na continuidade da exposição de Berman, verifica-se que Fausto tenta em vão comprar ou permutar a terra que ocupavam Filemo e sua esposa. Como o casal não se rende à nova forma de viver que se colocava, Fausto se queixa:

Resistência e teimosia assim

Frustram o êxito mais glorioso,

Até um ponto em que, lamentavelmente, o homem começa a se cansar de ser justo (Goethe, 19482 apud Berman, 1986, p. 66).

A lógica da “justiça” é a da transformação capitalista, racionalidade produtiva que se impõe como lógica não só da produção econômica, política e espacial, mas também social, logo, da vida. Nessa nova lógica de justiça, nada mais coerente do que retirar essas pessoas desse espaço, mesmo que à força e violência, apagando suas vidas e seus vestígios ou rastros espaciais. Uma das máximas do capitalismo é invocada: os fins justificam os meios, principalmente se eles favorecem o desenvolvimento do processo produtivo e a acumulação de capital.

De maneira tendencial, principalmente a partir do final século xix e depois todo o xx, segundo Lefebvre, a produção do espaço também pode ser analisada a partir da seguinte tríade: homogeneidade/fragmentação/hierarquização. Mas o que significa essa tríade? Quais são seus conteúdos?

Primeiramente, as tríades em Lefebvre implicam uma indissociabilidade dos elementos, assim, o espaço ao mesmo tempo pode e deve ser entendido a partir dessas três dimensões que se articulam e permitem compreender melhor o processo de (re)produção espacial. Mas, para melhor compreender seus conteúdos, podemos, didaticamente, caracterizar cada uma dessas dimensões espaciais.

As áreas modernas das grandes cidades (que concentram o que seria a ponta da gestão econômica/produtiva) têm uma aparência recorrente: formas, materiais edificantes e vias de circulação são todos muito parecidos em várias metrópoles do mundo. Se não fossem as particularidades dos lugares, diríamos que se trata das mesmas grandes cidades, com seus altos edifícios de vidros espelhados e formas arquitetônicas semelhantes, bem como as modernas pontes viárias, de modo que, nas formas, os centros modernos, comumente ditos requalificados, como os de São Paulo (região da Berrini), Buenos Aires (Porto Madero), Nova York (Manhattan), Sydney (Central Business District) ou Paris (La Défense), são muito semelhantes. Claro que existem particularidades que conferem uma singularidade ao lugar, mas que só quem conhece tais cidades poderia realmente afirmar de qual se trata. Assim, sob essa aparente tendência à homogeneidade, o espaço oculta os conflitos.

A homogeneidade se caracteriza pela fabricação de elementos sociais/materiais e de métodos de gestão, controle, vigilância e de comunicação sobre toda a vida socioespacial. Essa fabricação/controle impera na vida cotidiana de modo que, para a maior parte da população, essas formas/materialidades passam a ser sinônimos de modernidade e segurança, e são muito pouco questionadas. “Sorria você está sendo filmado”! Essa mensagem, presente em elevadores de edifícios, ruas, agências bancárias e supermercados, entre outros lugares, em vez de ser perturbadora, pois indica/avisa que se trata de uma forma de vigilância e controle dos corpos, passa a ser entendida como um modo de proteção contra a violência urbana, que existe, sim, mas que não é o elemento único da vida urbana, ainda que midiaticamente essa ideia seja insistentemente reforçada.

Pensada sob a lógica da produção capitalista do espaço, a tendência à homogeneidade se dá a partir de fragmentos, de espaços isolados, para determinada finalidade. Nesse sentido, homogeneidade e fragmentação precisam ser articuladas para tornar possível a compreensão do processo de produção do espaço.

Ao mesmo tempo que os espaços aparentemente se homogeneízam e contraditoriamente se fragmentam, eles também são hierarquizados socialmente. Ainda que, por exemplo, tendencialmente, nas formas, os centros modernos da cidade de São Paulo (região da Berrini em especial) se pareçam com Nova York (Manhattan), hierarquicamente, na escala mundo, não são postas lado a lado. Em escala local, há várias centralidades em São Paulo que tendem à homogeneidade, mas que se colocam a partir de uma hierarquia de importância, sendo que os agentes hegemônicos aí presentes se articulam e, ao mesmo tempo, competem e disputam mais poder nesses espaços, principalmente se se tomarem os investimentos econômicos como um dos parâmetros para a hierarquização espacial.

Retomando agora a questão inicial, o que seria a produção do espaço na contemporaneidade? Lefebvre (2013), ao se referir à etapa capitalista industrial, tem uma proposição de que o espaço é produto social que contém as relações sociais e de reprodução entendidas sobre algumas dimensões: uma seria voltada às relações biofisiológicas entre sexos, idades, numa organização da família; outra ligada à força de trabalho, em que a ênfase da análise se daria sobretudo da partir da classe operária e uma última ligada às relações de produção (divisão do trabalho e sua organização a partir das funções sociais hierarquizadas). Nessa análise, a produção espacial implicaria, necessariamente, uma articulação inseparável entre produção e reprodução.

Essa primeira tríade lefebvriana, homogeneização/fragmentação/hierarquização do espaço, se articula com outra tríade: a do concebido/percebido/vivido, dimensões da produção do espaço que também são indissociáveis. Entretanto, para melhor compreender essas dimensões, vamos discuti-las uma a uma, a fim de promover didaticamente sua articulação e indissociabilidade.

O concebido

Lefebvre chama de espaço concebido ou de representação do espaço a dimensão espacial ligada às relações de produção, ao conhecimento, ao planejamento, à ordem instituída. Em suas palavras:

As representações do espaço, ou seja, o espaço concebido, o espaço dos cientistas, planejadores, urbanistas, tecnocratas fragmentadores, engenheiros sociais e até um certo tipo de artistas próximos à cientificidade, todos os quais identificam o vivido e o percebido com o concebido (o que perpetua as velhas especulações sobre números: número áureo, módulos, cânones etc.), é o espaço dominante em qualquer sociedade (ou modo de produção). As concepções do espaço tenderiam (com algumas exceções às quais seria precido voltar) a um sistema de signos verbais3 (Lefebvre, 2013, p. 97, tradução nossa).

Trata-se do espaço planejado, instituído, aquele das normas técnicas (que são apresentadas como apolíticas), ou seja, um espaço que normatiza o que os cidadãos podem ou não fazer, que é apresentado como neutro, como se não tivesse sido planejado para garantir a realização de uma estratégia de reprodução que exige, no capitalismo, não só a manutenção da desigualdade socioespacial, como, em geral, de seu aprofundamento e, ao mesmo tempo, busca o controle social.

Boa parte das centralidades das metrópoles, bem como as áreas de requalificação urbanas, são espaços planejados, construídos com essa estratégia de garantia da reprodução do capital, e também de controle da sociedade. Mas, em vez de falar de Brasília ou do Plano de Avenidas de São Paulo, propomos a análise de um monumento: o Mausoléu Castelo Branco (Figura 1), na cidade de Fortaleza-CE.

Mausoléu Castelo Branco

Figura 1: Mausoléu Castelo Branco

Construído em homenagem ao general Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar no Brasil iniciada em 1964, esse mausoléu é hoje um ponto turístico da cidade de Fortaleza. Quem o visita deve necessariamente subir escadas para chegar à entrada. Entretanto, não se trata de qualquer tipo de escada (Figura 2). Talvez com receio de que os visitantes não reverenciassem a memória desse presidente, o arquiteto que a projetou, Sérgio Bernardes, projetou uma escada de madeira posta de maneira irregular, de modo que é impossível subi-la sem baixar a cabeça, ou seja, é o corpo se curvando devido a uma estratégia arquitetônica: os corpos se curvam como se reverenciassem a memória de Castelo Branco, mesmo que não o saibam. Esse é um exemplo de espaço concebido: planejado, construído de modo a dobrar corpos no cotidiano, garantindo, mesmo que a força e sem que o outro se aperceba, que se faça uma reverência.

Escadaria do Mausoléu Castelo Branco

Figura 2: Escadaria do Mausoléu Castelo Branco

Como dissemos, concebido, percebido e vivido são dimensões espaciais indissociáveis. Ainda que esse monumento tenha sido feito com a intenção de homenagear, a partir do resgate da memória de um presidente, um período do Brasil em que a sociedade vivia na ditadura, em que a dimensão do concebido é muito potente, as outras dimensões do espaço também estão presentes.

O vivido

A dimensão do vivido ou espaço de representação, por sua vez, estaria ligada ao lado clandestino e subterrâneo da vida social, como também à arte, quando esta tem a potência da subversão, ou seja, quando não se define como um código do espaço, mas como um código dos espaços de representação (Figura 3). Nas palavras de Lefebvre (2013, p. 98, tradução nossa):

Os espaços de representação, ou seja, o espaço vivido por meio das imagens e dos símbolos que o acompanham é, pois, o espaço dos moradores, dos “usantes”, mas também de certos artistas e talvez daqueles novelistas e filósofos que descrevem e só aspiram a descrever. Trata-se do espaço dominado, isto é, passivamente experimentado, que a imaginação deseja modificar e tomar. Recobre o espaço físico usando simbolicamente seus objetos. Por conseguinte, esses espaços de representação mostrariam uma tendência (de novo, com as exceções precedentes) aos sistemas mais ou menos coerentes de símbolos e signos não verbais.4

MST no Mausoléu Castelo Branco

Figura 3: MST no Mausoléu Castelo Branco

A ocupação5 do Mausoléu Castelo Branco pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que usou o espelho d’água como piscina para crianças e adultos, é uma das formas de subversão à ordem imposta. Nessa ação, fica em relevo a dimensão do vivido, que subverte a lógica do concebido. Ainda que momentâneo e pontual, esse ato promovido pelo movimento social (no caso, o MST) revela a potência da ação social, iluminando a luta contra a propriedade privada que priva parte da sociedade do direito à produção no campo e à moradia nas áreas urbanas.

Com essa ocupação, a propriedade privada foi posta em xeque. Ainda que aparentemente, nesse caso, esteja relacionado à questão agrária, sua realização a partir da apropriação desse espaço ocorreu no urbano. A tomada de um monumento concebido para lembrar a ordem e a estrutura hierárquica e fundiária da sociedade brasileira pode permitir o questionamento da concentração fundiária tanto no campo quanto na cidade, bem como o papel da propriedade privada como instrumento de segregação social. Talvez se diga que isso não é suficiente para alterar a lógica de reprodução capitalista, mas ao menos pode ser o início de uma tomada de consciência dos processos de dominação social e, como potência utópica, da construção de estratégias de luta e transformação da realidade social.

Essa é a potência da dimensão do vivido. Ela pode criar espaços de representação que contenham o devir como uma possibilidade a ser criada pela práxis, aqui entendida como a articulação indissociável entre a teoria e a prática social. Nesse sentido, surge o novo com potencialidade que emerge da vida, talvez na sua forma mais radical, dada pela necessidade da sobrevivência, do manter-se vivo a partir do ter o que comer e onde poder ao menos dormir. Estamos falando do limite de manter-se vivo em nossa sociedade.

O afloramento e o reconhecimento dessa dimensão do espaço, o vivido, em geral é notado em nossa sociedade a partir de expressões/ações de radicalidade, principalmente quanto ao uso que se faz no espaço.

O percebido

Segundo Lefebvre, o espaço percebido seria relativo à prática social e expressaria a relação entre:

[...] a realidade cotidiana (o uso do tempo) e a realidade urbana (as rotas e redes que se ligam aos lugares de trabalho, da vida “privada”, de ócio). Sem dúvida, essa associação é surpreendente, pois inclui a separação mais extrema entre os lugares que vincula. A competência e a performance espacial próprias de cada membro da sociedade só são apreciáveis empiricamente. Assim, a prática espacial “moderna” se define pela vida cotidiana de um habitante de moradia social na periferia - caso limite, mas sem dúvida significativo - sem que isso nos autorize a deixar de lado as autoestradas ou a política de transporte aéreo. Uma prática espacial deve ter certa coesão, sem que isso implique coerência (no sentido de intelectualmente elaborada, concebida logicamente)6 (Lefebvre, 2013, p. 97 tradução nossa).

Nesse sentido, já que corresponde à prática social, o espaço percebido de alguma forma articularia as dimensões do vivido (afinal, toda prática é vivida) e do concebido (dimensão em que as práticas sociais são conceitualizadas, tendendo, assim, ao desaparecimento da dimensão do vivido - ainda que ela exista). Destacamos que, muitas vezes, a prática social resulta do embate entre o que é concebido e o que vivido, mas tendencialmente na sociedade moderna, a dimensão do vivido, no cotidiano, a partir da relação com o concebido, adéqua-se a normas, códigos, símbolos, não necessariamente de forma plena, às vezes com pequenas subversões, mas sem ter força suficiente para uma mudança revolucionária. Na maior parte das situações cotidianas, o que há, fetichizado pela mercadoria, é um habitante que incorpora boa parte das ordens e imposições existentes na sociedade contemporânea capitalista, ainda que, potencialmente, a dimensão do vivido pudesse fazer dessa prática social um momento revolucionário.

Lefebvre busca explicar a articulação indissociável dessa tríade percebido/concebido/vivido a partir da dimensão corporal. O autor enfatiza que “[...] a prática social supõe um uso do corpo: o emprego das mãos, dos membros, dos órgãos sensoriais e dos gestos do trabalho e das atividades ligadas a ele. Trata-se da esfera do percebido (base prática da percepção do mundo exterior, no sentido psicológico)”7 (Lefebvre, 2013, p. 98, tradução nossa).

Lefebvre destaca a dimensão corporal para melhor entendermos essa tríade. Se na prática social é a partir do corpo que ela se realiza, na dimensão do concebido o corpo passa a ser codificado, do ponto de vista biológico, inclusive padronizado, de modo que, no capitalismo, os corpos devem se adaptar a formas preestabelecidas.

Segundo Lefebvre (2013, p. 99, tradução nossa), na dimensão do concebido as representações do corpo “[...] provêm de uma experiência científica difundida e mesclada de ideologias: conhecimento anatômico e psicológico relativo a enfermidades e remédios, à relação do corpo humano com a natureza e com seu entorno ou com o ‘meio’”.8

O corpo, na dimensão do concebido, passa a ser tão normatizado que, no cotidiano escolar, por exemplo, durante muito tempo no Brasil se fazia, e ainda continuam a fazê-lo, todo um mobiliário escolar a partir de um corpo padrão, como se todos os alunos tivessem o mesmo corpo. Resultado: na maior parte das escolas públicas, o mobiliário/área para um aluno é de um metro quadrado, independentemente de como é o aluno corporalmente, de modo que ele tem que dar um jeito de caber naquele espaço dentro da sala de aula.

O mesmo pode ser lembrado para a padronização das moradias nos poucos programas sociais de habitação existentes. Tem-se uma medida padrão de um corpo e do número de pessoas que a princípio seriam a média da população, e assim se padronizam as áreas das moradias populares que, em geral, são exíguas e, como no caso escolar, as pessoas têm que se adequar ao espaço projetado na dimensão do concebido, marcado pelo planejamento que se coloca sempre como racional e não político.

É na dimensão do vivido que a experiência corporal, segundo Lefebvre (2013, p. 99, tradução nossa):

[...] alcança um alto grau de complexidade e peculiaridade porque a cultura intervém aqui sob a ilusão da imediatez, nos simbolismos e na velha tradição judaico-cristã, alguns dos quais foram revelados pelo discurso psicanalítico. O “coração” vivido (até o desconforto e a doença) difere estranhamente do coração pensado e percebido. Mais ainda no que diz respeito aos órgãos sexuais. As localizações não são fáceis, e o corpo vivido atinge a pressão na turbulação moral de um corpo sem órgãos, castigado, castrado.9

O uso do corpo dá potência às ações de subversão, que são características da dimensão do vivido. A tomada do espaço pelo corpo, do sujeito coletivo, como estratégia de luta, recoloca a potência dessa dimensão espacial. Acima, falamos da ocupação do Mausoléu Castelo Branco, mas, frente a cada dia maiores tentativas de subordinação do social à lógica do concebido, surgem como de assalto à força do vivido, o qual momentaneamente se apresenta mais potente.

Foi o caso da tomada das escolas públicas do estado de São Paulo em 2015, quando da tentativa de reorganização escolar que supunha, espacialmente, o fechamento de várias unidades, com o argumento da racionalidade e do melhor funcionamento da rede escolar.

Inspirados no movimento dos secundaristas do Chile,10 os alunos de várias escolas estaduais que seriam atingidos por essa reorganização, o que redundaria em mudança de escola, ocuparam algumas das escolas estaduais, bem como, em alguns momentos, as ruas da cidade, como forma de luta. Momentaneamente tiveram sucesso, pois o estado voltou atrás na reorganização escolar, embora o projeto esteja sendo realizado aos poucos, sem muito alarde, a partir de outros argumentos e ações.

O que queríamos destacar nesse aspecto é essa sublimação da ação a partir da tomada de espaços com o uso dos corpos dos alunos que agiram coletivamente na luta, como podemos ver na Figura 4.

Em São Paulo, estudantes protestam contra o fechamento de escolas

Figura 4: Em São Paulo, estudantes protestam contra o fechamento de escolas

Ainda que indissociáveis quando falamos na produção do espaço, muitas vezes uma das dimensões se projeta acima das outras, ocultando-as. Cabe ao pesquisador analisar o processo de produção espacial de modo a compreender as relações entre essas dimensões a fim de ajudar a sociedade a entender esse processo que se faz presente no cotidiano, atingindo a vida de todos na sociedade, possibilitando, ao analisar o processo, iluminar-lhe os elementos para que a sociedade, ou grupos sociais, construa seu projeto de transformação socioespacial. Como diz Lefebvre (2013, p. 104, tradução nossa): “As relações entre esses três momentos - o percebido, o concebido e o vivido - não são nunca nem simples, nem estáveis, nem ‘positivas’ no sentido em que o termo se opõe a ‘negativo’, a indecifrável, ao não dito, a proibido e a inconsciente”.11

Decifrar, iluminar essas relações a partir da análise teórica, buscando atingir a práxis, é também um projeto de emancipação social.

Referências

  1. (). . . São Paulo: Companhia das Letras. .
  2. Do agronegócio à cidade como negócio: a urbanização de uma cidade mato-grossense sob a perspectiva da produção do espaço Doutorado thesis
  3. (). . . . Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/capitolio/panorama (accessed )
  4. (). . . . 1 fotografiaDisponível em: http://pebatecnologico.blogspot.com/2012/04/fortaleza-e-os-espacos-urbanos-inuteis.html (accessed )
  5. (). . . Madrid: Capitán Swing. .
  6. (). . . . 1 fotografiaDisponível em: http://pontoshpontoshistoricosdefortalezacea.blogspot.com/2010/03/mausoleu-castelo-branco.html (accessed )
  7. (). Estudantes protestam em São Paulo contra o fechamento de escolas. El País 1 fotografiaDisponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/30/politica/1448892896_085958.html (accessed )
  8. (). Gentrificação, a fronteira e a reestruturação do espaço urbano. Geousp - Espaço e Tempo 21, 15-31.Online
Esse fenômeno foi verificado em Capitólio-MG, que tinha 8.601 habitantes (estimativa de 2018), com renda média de 1,7 salário-mínimo, sendo que 28,1% tinham renda de meio salário-mínimo, com uma população ocupada de 26% (IBGE, [2018]). Fioravanti (2018) registra processo similar em Primavera do Leste-MT.
GOETHE, J. W. Fausto. Trad. Antônio Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1948.
“Las representaciones del espacio, es decir, el espacio concebido, el espacio de los científicos, planificadores, urbanistas, tecnócratas fragmentadores, ingenieros sociales y hasta el de cierto tipo de artistas próximos a la cientificidad, todos los cuales identifican lo vivido y lo percibido con lo concebido (lo que perpetuán las Arcanas especulaciones sobre los Números: el número áureo, los módulos, los cánones, etc.). Es el espacio dominante en cualquier sociedad (o modo de producción). Las concepciones del espacio tenderían (con algunas excepciones sobre las que habrá que regresar) hacia un sistema de signos verbales - intelectualmente elaborados” (Lefebvre, 2013, p. 97).
“Los espacios de representación, es decir, el espacio vivido a través de las imágenes y los símbolos que lo acompañan, y de ahí, pues, el espacio de los ‘habitantes’, de los ‘usuarios’, pero también el de ciertos artistas y quizá de aquellos novelistas y filósofos que describen y solo aspiran a describir. Se trata del espacio dominado, esto es, pasivamente experimentado, que la imaginación desea modificar y tomar. Recubre el espacio físico utilizando simbólicamente sus objetos. Por consiguiente, esos espacios de representación mostrarían una tendencia (de nuevo con las excepciones precedentes) hacia sistemas más o menos coherentes de símbolos y signos no verbales” (Lefebvre, 2013, p. 98).
A maior parte das mídias (tanto impressas quanto televisivas) usa o termo invasão, pois leva em conta o direito à propriedade privada. Usamos aqui ocupação, pois se tratou de um ato político do MST, que, em sua luta, questionava justamente esse direito à propriedade privada que priva do uso social tanto a terra no campo como os espaços urbanos.
“[...] la realidad cotidiana (el uso del tiempo) y la realidad urbana (las rutas y redes que se ligan a los lugares de trabajo, de vida ‘privada’, de ocio). Sin duda, esta asociación es sorprendente pues incluye la separación más extrema entre los lugares que vincula. La competencia y la performance espaciales propias de cada miembro de la sociedad sólo son apreciables empíricamente. La práctica espacial ‘moderna’ se define así por la vida cotidiana de un habitante de vivienda social en la periferia - caso límite, pero sin duda significativo -, sin que esto nos autorice a dejar de lado las autopistas o la política de transporte aéreo. Una práctica espacial debe poseer cierta cohesión, sin que esto sea equivalente a coherencia (en el sentido de intelectualmente elaborada, concebida lógicamente” (Lefebvre, 2013, p. 97).
“[...] la práctica social supone un uso del cuerpo: el empleo de las manos, de los miembros, de los órganos sensoriales y de los gestos del trabajo y de las actividades ajenas a éste. Se trata de la esfera de lo percibido (base práctica de la percepción del mundo exterior, en el sentido psicológico)” (Lefebvre, 2013, p. 98).
“[...] provienen de una experiencia científica difundida e mezclada de ideologías: conocimientos anatómicos, psicológicos, relativos a las enfermedades y remedios, a la relación del cuerpo humano con la naturaleza y con sus entornos o con el ‘medio’” (Lefebvre, 2013, p. 99).
“[...] alcanza un alto grado de complejidad y peculiaridad, porque la cultura interviene aquí bajo la ilusión de la inmediatez, en los simbolismos y en la vieja tradición judeocristiana, algunos de cuyos aspectos han sido revelados por el discurso psicoanalítico. El ‘corazón’ vivido (hasta el malestar y la dolencia) difiere extrañamente del corazón pensado y percibido. Más aún en lo que a los órganos sexuales se refiere. Las localizaciones no son fáciles y el cuerpo vivido alcanza bajo la presión de la moral la turbación de un cuerpo sin órganos castigado, castrado” (Lefebvre, 2013, p. 99).
Em 2006, estudantes secundaristas do Chile tomaram as ruas reivindicando mudanças no sistema educacional de modo a garantir acesso e qualidade à maior parcela da população. Foram apelidados de pinguins por causa do uniforme escolar. Em 2016, os estudantes voltaram às ruas para reivindicar maior participação nas reformas empreendidas pelo governo que, na visão dos manifestantes, privilegiavam os interesses empresariais, e não da sociedade.
“Las relaciones entre esos tres momentos - lo percibido, lo concebido y lo vivido - no son nunca simples ni estables, ni ‘positivos’ en sentido en que el término se opone a lo ‘negativo’, a lo indescifrable, a lo no-dicho, a lo prohibido y al inconsciente” (Lefebvre, 2013, p. 104).
Disponível em: https://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/163307.