Saudações I: Uma análise figurativa da cultura popular na lírica de Rachel de Queiroz

  • Fernângela Diniz da Silva Universidade Federal do Ceará
  • Lia Leite Santos Universidade Federal do Ceará
  • Suzane Gomes Universidade Federal do Ceará
Palavras-chave: Rachel de Queiroz, Poesia, Cultura popular

Resumo

A obra literária da escritora cearense Rachel de Queiroz é, sobretudo, reconhecida por suas produções romanescas, como O Quinze (1930) e Memorial de Maria Moura (1992). No entanto, sabemos que sua arte se revela também nas crônicas, no teatro e na poesia. A produção Serenata, publicada em 2015, trata de uma compilação de poemas, ainda pouco repercutida no meio acadêmico, que aborda diversas temáticas, a exemplo dos pensamentos adolescentes, da seca, do espaço cearense, aludindo em seus versos à cultura popular, especialmente, relacionada ao sertão. O presente artigo se dedicará à análise do poema “Saudações I”, buscando identifi car elementos referentes à expressão da cultura popular, além de propor uma leitura que almeja verifi car o efeito de sentido provocado por essas escolhas discursivas. Para tanto, este estudo apoia-se nos conceitos da Semiótica Discursiva elaborados por José Luiz Fiorin (2010), Diana Luz Pessoa Barros (1988) e Denis Bertrand (2000). Além disso, teremos como embasamento teórico os estudos de Roger Chartier (1995), Peter Burke (1989), Cristina Costa (2005) e Petrônio Domingues (2011), pesquisadores que abordam a temática da cultura popular de forma cronológica e crítica.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Fernângela Diniz da Silva, Universidade Federal do Ceará

Graduada em Letras Português/Francês, pela Universidade Federal do Ceará. Mestranda em Letras, na área de Literatura Comparada (UFC). Bolsista CAPES

Lia Leite Santos, Universidade Federal do Ceará

Graduada em Letras Português/Literaturas, pela Universidade Federal do Ceará. Mestranda em Letras, na área de Literatura Comparada (UFC). Bolsista CAPES. E-mail: lia.leite@outlook.com

Suzane Gomes, Universidade Federal do Ceará

Graduada em Letras Português/Inglês, pela Universidade Federal do Ceará. Mestranda em Letras, na área de Literatura Comparada (UFC). 

Referências

A cultura correspondeu nas ciências sociais novecentistas a um conjunto de hábitos, costumes e formas de vida capazes de distinguir um povo de outro ou um grupo social de outro. Esteve relacionada com os estudos históricos e folclóricos numa acepção predominantemente materializada a vida social – a cultura corresponderia, nessa visão, a um conjunto de utensílios e produtos em torno dos quais a sociedade se organiza – ferramentas, alimentos, matérias-primas, técnicas (COSTA, 2005, p. 391).

A cultura correspondeu nas ciências sociais novecentistas a um conjunto de hábitos, costumes e formas de vida capazes de distinguir um povo de outro ou um grupo social de outro. Esteve relacionada com os estudos históricos e folclóricos numa acepção predominantemente materializada a vida social – a cultura corresponderia, nessa visão, a um conjunto de utensílios e produtos em torno dos quais a sociedade se organiza – ferramentas, alimentos, matérias-primas, técnicas (COSTA, 2005, p. 391).

um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simbólicas (apresentações, objetos artesanais) em que eles são expressos ou encarnados”. A cultura nessa acepção faz parte de todo um modo de vida, mas não é idêntica a ele. Quanto à cultura popular, talvez seja melhor de início defini-la negativamente como uma cultura não oficial, a cultura da não elite, das “classes subalternas”, como chamou-as Gramsci. (BURKE, 1989, p. 11).

dependendo do grau de concretude dos elementos semânticos que revestem os esquemas narrativos, há dois tipos de texto: os figurativos e os temáticos. Os primeiros criam um efeito de realidade, pois constroem um simulacro da realidade, representado, dessa forma, o mundo; os segundos procuram explicar a realidade, classificam e ordenam a realidade significante, estabelecendo relações e dependências. Os discursos figurativos têm uma função descritiva ou representativa, enquanto os temáticos têm uma função predicativa ou interpretativa. Aqueles são feitos para simular o mundo; estes, para explicá-los (FIORIN, 2005, p. 91).

Ler um texto não é apreender figuras isoladas, mas perceber relações entre elas, avaliando a trama que constituem. A esse encadeamento de figuras, a essa rede relacional reserva-se o nome de percurso figurativo. No texto verbal, um conjunto de figuras lexemáticas relacionadas compõem um percurso figurativo (ibid., p. 97).

É “poesia” aquilo que o público, leitores ou ouvintes, recebe como tal, percebendo ou atribuindo a ela uma intenção não exclusivamente referencial: o poema é sentido como manifestação particular, em certo tempo e lugar, de um vasto discurso que, globalmente, é uma metáfora de discursos comuns mantidos no bojo do grupo social (ZUMTHOR, 1993, p. 159).

A própria língua não parece atingida por preocupações de experimentalismo: a não ser a de compilação de canções do Nordeste e na inserção de diálogos caboclos (aqueles diálogos tão espontâneos que justificarão a experiência teatral) na trama narrativa. O que conta, de qualquer modo, nesses textos é a intenção: a arte instrumental, a serviço de uma ideia regionalista (...) (STEGAGNO-PICCHIO, 2004, p. 528).

Este Nordeste é uma máquina imagético-discursiva que combate a autonomia, a inventividade e apoia a rotina e a submissão, mesmo que esta rotina não seja o objeto explícito, consciente de seus autores, ela é uma maquinaria discursiva que tenta evitar que os homens se apropriem de sua história, que a façam e sim que viva uma história já pronta (...), que ache natural viver sempre da mesma forma as mesmas injustiças, misérias e descriminações (ALBUQUERQUE, 1999, p. 85).

Publicado
2018-07-29
Como Citar
Silva, F., Santos, L., & Gomes, S. (2018). Saudações I: Uma análise figurativa da cultura popular na lírica de Rachel de Queiroz. Opiniães, (12), 76-89. https://doi.org/10.11606/issn.2525-8133.opiniaes.2018.143392