Lembrar “Para Que” ou “Em Nome do Que”? Reflexões Sobre os Sentidos Políticos da Memória

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.2237-1095.v10p88-103

Palavras-chave:

Memória, Política, Hannah Arendt, Violência de Estado, Políticas de memória

Resumo

Os questionamentos acerca das dimensões propriamente políticas da memória têm se desenvolvido em grande parte em contextos e sociedades marcados por longos períodos de autoritarismo, guerra e violência de Estado, como na África do Sul pós-apartheid, na antiga Iugoslávia e nos países da América Latina que viveram sob ditaduras militares na segunda metade do século XX. Nesses contextos, a memória é com frequência vista como meio para se alcançar o reconhecimento e a justiça histórica reivindicada pelas vítimas, bem como a punição adequada para os perpetradores. Instalam-se assim os mais diversos mecanismos, como Tribunais Penais e Comissões da Verdade, norteados pelo pressuposto comum de que uma sociedade verdadeiramente democrática não poderá emergir sem que haja algum tipo de “acerto de contas” com o passado, viabilizado por tais políticas de memória. Este artigo propõe uma discussão acerca desse pressuposto a partir do arcabouço teórico de Hannah Arendt, cuja filosofia política distingue com firmeza o campo da ação política da esfera da fabricação. A política está, numa perspectiva arendtiana, intrinsecamente ligada à igualdade e à liberdade, mas é um aspecto da condição humana que não possui meios claramente delimitados nem tampouco pode ser reduzida a determinados fins a ser alcançados. Assim, procura-se delinear uma compreensão das dimensões políticas da memória que removam o conceito de um espectro utilitarista e funcional o qual acaba, por vezes, reduzindo seu significado mais profundo a desgastados clichês.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Nina Galvão, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Licenciada em História e mestra em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Humanidades Direitos e Outras Legitimidadespela Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Referências

Anderson, Benedict. (2008). Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras.

Ansara, Soraia. (2012). Políticas de Memória X Políticas do Esquecimento: possibilidades de desconstrução da matriz colonial. Psicologia Política, 12(24), 297-311. Acessado em 31 de Março de 2019, de: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2012000200008

Ansara, Soraia. (2008). Memória política: construindo um novo referencial teórico na Psicologia Política. Psicologia Política, 8(15), 31-56. Acessado em 31 de Março de 2019, de: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2008000100004

Arendt, Hannah. (2016). A promessa da política. Rio de Janeiro: Difel.

Arendt, Hannah. (2013). Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras.

Arendt, Hannah. (2010). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Arendt, Hannah.(2006). Between past and future. Nova Iorque: Penguin Books.

Assmann, Aleida. (2011). Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas: Editora da Unicamp.

Cornelse, Elcio., Vieira, Elisa., & Seligmann-Silva, Márcio. (Org) (2012). Imagem e Memória. Belo Horizonte: Rona Editora.

Dragovic-Soso, Josna. (2010). Conflict, Memory, Accountability: What Does Coming to Term With the Past Mean?. Em Wolfgang Petritsch., & Vedran Dzihic. (Eds). Conflict and Memory: Bridging Past and Future in [South East] Europe. Baden Baden: Nomos.

Elias, Norbert., & Scotson, John L. (2000). Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Halbwachs, Maurice. (1990). A memória coletiva. São Paulo: Vértice. (originalmente publicado em 1950).

Hobsbawn, Eric., & Ranger, Terence. (1997). A invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra.

Meneses, Ulpiano T. Bezerra de. (1992). A História, cativa da memória. Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 34, 9-24. Acessado em 19 de Maio de 2019, de: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70497

Nichanian, Marc. (2009). The historiographic perversion. Nova Iorque: Columbia University Press.

Pollak, Michael. (1989). Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, 2(3), 3-15. Acessado em 27 de julho de 2019, de: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2278/1417

Pollak, Michael. (1992). Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, 5(10), 200-212. Acessado em 27 de julho de 2019, de: http://www.pgedf.ufpr.br/memoria%20e%20identidadesocial%20A%20capraro%202.pdf

Ricoeur, Paul (2018). A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp.

Resina, Joan Ramon (2012). Posguerra diferida. Latencia como categoria de analisis histórico. Em Elcio Cornelse., Elisa Vieira., & Márcio Seligmann-Silva. (Org). Imagem e Memória. Belo Horizonte: Rona Editora.

Sa’di, Ahmad H., & Abu-Lughod, Lila. (ed.). (2007). Nakba: Palestine, 1948 and the claims of memory. Nova Iorque: Columbia University Press.

Silva, Alessandro S. da & Braga, Victória L. (2019). Memorial da Resistência: um instrumento de políticas de memória, de educação em direitos humanos e de luta contra o esquecimento. Revista Gestão & Políticas Públicas, 9(1), 101-122. Acessado em 19 de Abril de 2020, de: https://www.revistas.usp.br/rgpp/article/view/176278/163931

Vargas, Diego., & Jayo, Martin. (2020). Os Arcos do Bixiga (São Paulo): um caso de instrumentalização de política de memória. Revista Memória em Rede, 12, 170-193. Acessado em 12 de Agosto de 2020, de: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/Memoria/article/view/16744

Zerubavel, Eviatar. (2003). Time maps: Collective Memory and the Social Shape of the Past. Chicago: Chicago University Press.

Downloads

Publicado

2020-08-16

Como Citar

Galvão, N. (2020). Lembrar “Para Que” ou “Em Nome do Que”? Reflexões Sobre os Sentidos Políticos da Memória. Revista Gestão & Políticas Públicas, 10(1), 88-103. https://doi.org/10.11606/issn.2237-1095.v10p88-103

Edição

Seção

Artigos