A placenta clariciana: o it vivo e seu instante-já-aleluia

Palavras-chave: Água viva, Lispector, Semiótica, Afetos, Figuratividade

Resumo

O artigo discute a abstração linguística em Água Viva, de Clarice Lispector, à luz da semiótica de orientação francesa. Parte-se da estratégia da autora de deixar, na enunciação-enunciada, as marcas de um processo criativo que resultou em uma grade de leitura contínua, sem divisões em capítulos. Um simulacro da enunciação sendo enunciada. A autora faz isso ao escrever por esboços: criando efeitos de sentido mais abertos a interpretações, circundando-os, ao negar a cristalização compartilhada erigida pela tradição dicionarista que relega as palavras à clausura. A oposição semântica fundamental entre vida e morte deixa de existir. Ambos se fundem em um só objeto com estatuto de sujeito - que toma o ator da enunciação numa metáfora da ressignificação das palavras. A narrativa interessa-se por tudo que é, pelo ser daquilo que ela descreve como it, que não é a coisa ontológica e não pode ser nomeado. A obra é tomada, neste trabalho, como rica fonte de reflexão semiótica acerca de um projeto geral e abstrato que garante à língua possibilidades de ultrapassagem semântica de quaisquer limites, mostrando a força das construções sintagmáticas do discurso no percurso da significação no qual o afeto é subjacente, em face da categorização do lexema.

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Biografia do Autor

Fernando de Freitas Moreira, Universidade de São Paulo

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística geral, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP), SP, Brasil.

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Publicado
2019-08-19
Como Citar
Moreira, F. (2019). A placenta clariciana: o it vivo e seu instante-já-aleluia. Estudos Semióticos, 15(1), 212-235. https://doi.org/10.11606/issn.1980-4016.esse.2019.156151