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Artigo trata da relação entre Homero e Clarice Lispector na abordagem do mito das sereias

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Sedução e saber – a sedução pelo conhecimento é a discussão proposta na contraposição das sereias da Odisseia e de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres

Normalmente se atribui à ideia de sereia como ser fantástico, conhecido por se constituir de metade mulher e metade peixe, que canta e vive nos mares, encantadora para alguns, traiçoeira para outros. Filmes e histórias são povoados de sereias, aguçando nosso imaginário. No artigo da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Adelia Bezerra de Meneses trata do tema do mito da sereia e a relação entre saber e sedução, contrapondo o mito da sereia na obra Odisseia, de Homero com o romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector.

O artigo traz, para esse estudo, a leitura do filósofo alemão Theodor W. Adorno sobre o mito odisseico da sereia, “em um viés menos explorado na diluição desse mito, que é a inquietante relação entre sedução e saber, ou melhor: a sedução pelo conhecimento”. A partir disso, construiu-se um paralelo do mito bíblico de Adão e Eva e a Árvore do Conhecimento com a relação sereia e serpente, presente no mito indígena da Mãe d’Água. As sereias são seres míticos presentes em diversas culturas e em todas as artes desde a Antiguidade Clássica. Na Odisseia de Homero, as sereias são vistas como “seres perigosos: voz maravilhosa, seduzem quem delas se aproxime, levando à destruição”. O canto é tido como armadilha para incautos, mas, ao mesmo tempo, as sereias sabem de tudo, “prometem apenas, a quem os ouve, que partirá ‘mais’ sábio”. As sereias no mundo grego corresponderiam, assim, à serpente no mundo bíblico, convidando Adão e Eva a provarem o fruto perigoso, “fruto do conhecimento pelo qual nossos primeiros pais perderam o Éden”.

Meneses conta que na Odisseia, o personagem Odisseu não comeu o “fruto perigoso”, isto é, ele “resistiu às Sereias, escapou da danação”. Nesse contexto, Theodor Adorno enxerga a Odisseiacomo a viagem metafórica do homem ocidental em busca da constituição do sujeito”, deparando-se, enfrentando e vencendo seres tidos como monstruosos, como as sereias. No Brasil, temos a Mãe d’Água, com aspectos “ofídicos” – o mito brasileiro alia sereia e serpente. Na literatura brasileira, Clarice Lispector, em sua obra Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, apresenta sua sereia, Lorelei, a buscar prioritariamente sua identidade como mulher que trilha a “constituição do eu”. Lorelei contracena com o personagem Ulisses, em uma alusão de Clarice à Odisseia, mas atuando “num nível mais profundo” que a simples sedução ao par amoroso, pois é nítida a articulação entre a sereia e o saber.

Se, em Odisseia, Penélope espera, em Uma aprendizagem é Ulisses quem espera, a viagem é interior e efetivada pela personagem feminina. Meneses aponta o “jogo de reapropriações e inversões” que Clarice cria com as personagens Lóri, Penélope e Ulisses. Lóri quer seduzir Ulisses não pelos dotes físicos, mas pela busca do conhecimento: “Só quando dispensa todos os recursos exteriores da sedução, essa mulher está ‘pronta’ para ficar com o seu homem”. O mito da serpente do Éden que seduziu Eva e depois Adão, aparece em Clarice com o símbolo da maçã permeando toda a história. Ao morder a maçã, Lóri entra no Paraíso em em “estado de graça”.

Para Meneses, no romance de Clarice, o mito bíblico é “desconstruído/reconstruído nesse recorte das relações entre sedução e saber, conhecimento e danação”. Morder a maçã é transgredir, é ousar. A curiosidade e a fome de conhecimento sempre farão parte da caminhada humana, seja para beneficiá-lo ou para fazê-lo perder-se a si mesmo. A simbologia da maçã como a busca pelo conhecimento, afirma Meneses, está presente no físico Newton, “cuja teoria da gravidade significou um marco decisivo na ciência para a humanidade”, no “pretensioso símbolo da cidade de Nova York (a “Big Apple”) e ao que ela significa em termos de civilização e ambiguidade”, e também figura estampada em celulares de alta tecnologia. “Em todo o caso, a busca do conhecimento bordeja o abismo da danação”, conclui a autora.

Artigo

MENESES, Adelia Bezerra de. Sereias.  Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, v. 1, n. 75, p.  71-93, 2020. ISSN: 2316.901X. DOIhttps://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v1i75p71-93. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/169168. Acesso em: 15 jul. 2020.

Contato

Adelia Bezerra de Meneses – Professora voluntária do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e pesquisadora do CNPq. e-mail: adeliabm@terra.com.br

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