• A experiência étnico-racial nas literaturas de Língua Portuguesa
    n. 23 (2019)

    Grito Negro

    Eu sou carvão!
    E tu arrancas-me brutalmente do chão
    E fazes-me tua mina
    Patrão!

    Eu sou carvão!
    E tu acendes-me, patrão
    Para te servir eternamente como força motriz
    mas eternamente não
    Patrão!

    Eu sou carvão!
    E tenho que arder, sim
    E queimar tudo com a força da minha combustão.

    Eu sou carvão!
    Tenho que arder na exploração
    Arder até às cinzas da maldição
    Arder vivo como alcatrão, meu Irmão
    Até não ser mais tua mina
    Patrão!

    Eu sou carvão!
    Tenho que arder
    E queimar tudo com o fogo da minha combustão.

    Sim!
    Eu serei o teu carvão
    Patrão!

     

    José Craveirinha - “Grito Negro” (1964)

     

    Concomitantemente à consolidação da literatura brasileira, a questão étnico-racial foi apresentada, discutida e elaborada como material literário. Aquilo que conhecemos como cânone abrange essa temática, no entanto, imprescinde da ação exploratória e do olhar excludente do dominador. Há que se considerar, portanto, que boa parte da experiência étnico-racial presente nessa produção, pautada pela branquitude e pelo eurocentrismo, aprisionou sujeitos não-brancos à posição de Outro.

     

    No entanto, investigações recentes vem levantando, para além de leituras que denunciam tais práticas excludentes e racistas, uma produção literária de qualidade e representativa da experiência étnico-racial em países de língua oficial portuguesa. Vale ressaltar aqui que tal despontamento extrapola os muros da academia e as prateleiras das grandes livrarias, deslocando-se também para outros espaços. Editoras independentes, saraus, slams vêm conclamando e apresentando novos modos de compreensão e problematização da questão étnica e racial, interseccionalizando-a, muitas vezes, com outros marcadores sociais da diferença.

     

    Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Equatorial, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, não diferente do que acontece em solo brasileiro, mas considerando seus tempos e modos particulares, são desenvolvidos material literário e cultural que desafiam e desautorizam pré-conceituados e viciados olhares para a experiência racial e étnica, dando voz a escritores e escritoras negros, indígenas e não-brancos. A exemplo disto, o poema de José Craveirinha, que utilizamos como epígrafe, já em 1964, denunciava, com voz própria, a situação da população negra em Angola e, por conseguinte, no continente africano.

     

    É neste contexto que a Revista Crioula, em sua vigésima terceira edição, convida pesquisadores brasileiros e estrangeiros, a contribuir com o dossiê “A experiência étnico-racial nas Literaturas de Língua Portuguesa”. Para compor este número, incentivamos contribuições que apresentem estudos relacionados à temática racial ou étnica, nas diversas literaturas produzidas em Língua Portuguesa, as quais, focalizando a temática apresentada, promovam discussões sobre situações experienciadas pelas literaturas em língua portuguesa frente a estes temas.

  • Espaços em movimento: as literaturas de língua portuguesa em contextos de crise política
    n. 22 (2018)

    "Esse é tempo de partido,
    tempo de homens partidos."
    Nosso tempo - Carlos Drummond de Andrade

    Os espaços identificados com a língua portuguesa vivem contextos políticos distintos entre si, tanto em suas trajetórias históricas quanto em seus contextos atuais. Quando nos deparamos com o conceito de democracia (poder do povo), é fundamental refletir sobre as condições em que determinado sistema de poder se desenvolve. As movimentações sociais pelas quais passamos atualmente ameaçam os direitos humanos e identificam, em todo o mundo, uma crise democrática com raízes históricas diversas; em cada nação ela apresenta questões singulares que são abarcadas pela sociedade em suas mais diversas manifestações. A literatura, portanto, pode surgir como aspecto de resistência e reflexão, percorrendo espaços, tempos e sujeitos que vivenciam ou já atravessaram as mais diversas crises democráticas. O dossiê "Espaços em movimento: as literaturas de língua portuguesa em contextos de crise política" nomeia a edição número 22 da Revista Crioula e pretende oferecer a possibilidade de diálogo entre literatura e política, uma relação de linguagem disposta a entender e atuar na dinâmica dos espaços onde vivemos.