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Artigo discute lugar do corpo no ensino não presencial

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Estar na escola, estar no curso, estar na faculdade significa que o aluno e seu corpo estão presentes nesses lugares e interagem com os colegas para estudarem juntos, trocarem experiências, dialogarem com o professor, estabelecerem uma relação de troca que o ensino presencial proporciona em todos os âmbitos, como dar-se as mãos em um jogo ou em uma brincadeira. A pandemia “trouxe o ensino literalmente para dentro de casa. Não há mais o pátio, a escada e a correria”, não há mais o sentar-se em um banco para jogar conversa fora, não se pode mais tomar um sorvete com a “galera” antes de voltar para casa. Tudo isso mudou, agora o ensino precisa ser de longe, pela tela do computador, online, por imagem, para se evitar a contaminação por vírus que se adquire pelo ar.

Crianças e adolescentes estudam agora virtualmente. “Cadê o abraço dos colegas, por que a professora aparece no computador e não dá um tchau quando eu aceno para ela?”, perguntam os alunos mais novos, sem entenderem direito o que está acontecendo com a escola. Como fica a relação professor-aluno no ensino não presencial? Carneiro e Scherer, autoras do artigo da revista Estilos da Clínica propõem um estudo em relação à “participação do corpo no ensino não presencial”, tendo como pressuposto que a relação professor-aluno é baseada no estímulo, no incentivo e na participação do movimento corporal. As autoras investigam“as marcas desse encontro/desencontro entre corpos” no questionamento das “possíveis ocorrênciasda não presença física no ensino remoto”.

Apesar de crianças e adolescentes reclamarem que a escola ou a instituição é uma “chatice”, “uma prisão”, hoje, com o distanciamento forçado que a pandemia impôs, os alunos sentem saudades dos colegas e “da instituição escola e seus espaços”. Se a escola é um espaço determinado por regras e regulamentos, ela é também espaço de “rompimento com o estabelecido e de trocas afetivas que o transformam em um espaço vivo. A escola torna-se um lugar de corpos pulsantes”. Do ponto de vista psicológico das autoras, a agressividade de algumas brincadeiras, paralela às demonstrações de carinho, é um índice da sexualidade infantil nos espaços de aprendizagem, permeado de situações geradas pelo despertar do aluno para sensações de raiva ou de contentamento, por exemplo, expressas pelo corpo.

A questão atual é de como estabelecer virtualmente a mesma relação com os alunos que se movimentam e circulam entre aprendizados e afetos no “palco vivo” da escola, em que o “educador constrói suas particulares formas de leituras do outro-aluno para modular sua relação com ele”. A imagem, privilegiada pela pandemia, fez nascer uma nova forma de comunicação, pois a narrativa, para ser entendida, não conta mais com sequências do tempo linear – presente, passado e futuro, mas o sentido é captado pela mistura dos três tempos, a partir de flashes de imagens pouco relacionados entre si”. Entende-se o sentido da narrativa no instante em que a imagem aparece na tela.  

O ensino online acaba por achatar a relação aluno e professor, pois este é pressionado e atado por obrigações quantitativas de aulas sem motivação diante do “aluno sem corpo”, ou seja, “aqueles que não aparecem, nem através da imagem nem da voz”. Essa afirmação nos alerta para a dimensãoda relação entre educador e o aluno e seu corpo no ensino presencial, pois, para o professor fazer uma “leitura” desse aluno é preciso apresença, o “aluno-corpo”, e, para isso, o próprio educador precisa buscar seu “eu” capaz de lidar com o outro, que no caso é o aluno, este que assim passa a não ser mais um aluno-corpo-estranho”.

As autoras advertem para a relevância, no processo de aprendizagem, da troca de experiências que envolvem as manifestações do corpo em sociedade. “Sem o ritmo, o movimento, e a expressividade do corpo do outro, a leitura do espaço entre educador e aluno – mais a linguagem” teria de ser realizada de outra maneira. A escola não é mais uma vivência concreta, “diante de corpos reduzidos e achatados”, mas o educador pode criar um modo de aproximação com seus alunos, de forma a preencher um pouco o vazio do aluno que se sente só, isolado e desestimulado diante de uma nova realidade educacional.

Artigo

CARNEIRO, C.; SCHERER, L. C. B. Corpos estranhos ou não-corpos: reflexões sobre a participação do corpo no ensino não presencial. Estilos da Clínica, São Paulo, v. 26, n. 1, p. 4-16, 2021. ISSN: 1981-1624. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v26i1p4-16. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/estic/article/view/178985. Acesso em: 02 jun. 2021.

Contatos

Cristiana Carneiro -Professora Associada da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ. e-mail: cristianacarneiro13@gmail.com

 Larissa Costa Beber Scherer – Psicanalista e doutoranda em Psicologia pela   Universidade Federal do Rio de Janeiro. e-mail: larissascherer70@gmail.com

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